Normas

Da Paraíba para o mundo, com amor:

Todo o material publicado nesta página representa o ponto de vista parcial e preconceituoso de um indivíduo do século passado. Se você achar aqui afirmativas que lhe pareçam sexistas, xenófobas, racistas ou, de qualquer outra maneira, ofensivas a seus pontos de vista, pare de ler imediatamente. Ou prossiga, a seu próprio risco. Ou não.

Use antes de agitar: leia as normas do blog e lembre-se: comentários são moderados. Anônimos não serão publicados.

E aproveite que eu sou professor: se você achar que eu posso ajudar, mande um e-mail para mrteeth@ghersel.com.br

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

Clareamento dental

"Essas feridas da vida, Margarida
Essas feridas da vida, amarga vida"
Vital Farias

Ontem tive minha atenção chamada por uma metéria na revista Veja, sobre clareamento dental. O interessante na matéria é que os pequenos problemas que podem resultar de um clareamento, mesmo que muitíssimo bem feito, ficam em segundo plano. O tratamento é citado como um procedimento estético normalíssimo, algo que qualquer mortal pode fazer, independente de ser um tratamento de saúde, que utiliza medicamentos e que tem, como todo tratamento, efeitos colaterais. Claro que tem.

Uma boa parcela dos pacientes que se submetem a esse tratamento apresentam sensibilidade pós-operatória. Isso ocorre porque o principal ingrediente ativo dos géis clareadores, o Peróxido de Carbamida, pode penetrar em trincas do esmalte e causar sensibilidade à dentina subjacente. Essas trincas são muito mais comuns do que se imagina, então é de se esperar que a quantidade de pacientes com sensibilidade trans e pós-operatória seja bastante razoável. E aí, como resolver? É, doutor, clarear você sabe, mas sanar a sensibilidade eu quero ver!

É esse o grande problema da odontologia hoje. Acho que é um dos problemas por que passa também a cirurgia plástica. São oferecidas como tratamentos meramente estéticos, como se fosse uma maquiagem, coisinha básica, fácil, rápida, praticamente indolor e que quase pode ser feita em casa. Eu sei, estou exagerando um pouco, mas sempre tenho essa impressão. Em outra edição, a mesma revista fala dos estrangeiros que vêm ao Brasil fazer tratamentos estéticos. O mais procurado é a cirurgia plástica, em segundo lugar a odontologia. Porquê?

São especialidades que, nos EUA e na Europa custam muito caro. Custam caro porque lá os profissionais precisam pagar seguros caríssimos, que cobrem processos por parte dos clientes. Se o cliente processar e ganhar, o seguro paga. O profissional paga o seguro e repassa o custo ao cliente. Mais ainda: ele aumenta esse custo por conta da dor de cabeça que é encarar um processo, mesmo que você não seja condenado. E esses seguros são caros porque é muito fácil ganhar um processo desses. Clareamentos são completamente imprevisíveis, ninguém consegue prever o quanto vai mudar a cor de um dente.

Os brasileiros ainda não descobriram a mina de ouro que é processar médico e dentista. Também, com o sistema judiciário que nós temos, até você conseguir receber uma indenização... é capaz de ter que deixar no testamento!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Duda Mendonça

Meu herói!

Eu já disse em algum lugar que eu odeio publicitários, mas o Duda é o meu herói de verdade. Um dos homens que eu mais admiro no Brasil, e eu não digo isso com qualquer traço de ironia, é a mais pura verdade. Hoje eu li uma reportagem que diz que ele conseguiu arrancar mais de 15 milhões de dólares de políticos brasileiros, argentinos e de outras nacionalidades tão execráveis quanto, e escondeu em uma conta secreta.

UAU, isso era tudo o que eu sonhava em fazer na vida! Eu já não aguento mais ser extorquido pelo fisco brasileiro, ser sangrado do meu dinheiro suado para que os políticos viajem de jatinho particular comendo caviar e tomando Möet & Chandon enquanto eu como torrada seca no café da manhã. Políticos deveriam pagar para exercer cargos eletivos. Ao invés disso eles recebem fortunas arrancadas do meu trabalho, não é justo. Agora, o Duda ganhar uma fortuna e esconder do fisco é o máximo! Eu daria um prêmio pra ele. Ainda por cima, ele nunca extorquiu dentista, nunca falou em arrancar o meu dinheiro.

Tracemos um paralelo: se um ladrão invade a minha casa, faz uma limpa, mas não vê a caixa de sapato que eu escondi embaixo da cama com as notas de $20,00 (sim, caro leitor, nota de 20 pra mim é fortuna, eu escondo direitinho), é a maior felicidade. Eu sou atá capaz de contar pra polícia: "Ó, ele levou o videocassete que eu ainda não terminei de pagar, mas não achou minhas notas de $20!". Se ele acha as notas de 20 eu não tenho o que comer amanhã. Pois o fisco faz a limpa nas minhas contas e, se acha a caixa com as notas de 20 ele não só leva como ainda me processa, eu corro o risco de ir pro xadrez.

Duda: sinto muito pelo ladrão ter achado sua caixa de sapato escondida. Infelizmente você não escondeu tão bem quanto devia, foi um erro seu, você é humano, comete erros, acontece. Espero, sinceramente, que você tenha outra caixinha escondida e que os ladrões não achem, porque você merece ficar com ela. Você trabalhou por essas notas, não roubou de ninguém, ninguém foi obrigado a lhe dar dinheiro algum, pagaram pelo seu trabalho honesto e o dinheiro é seu! Você tem aqui um admirador.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

10 Mitos da Ortodontia 8

A estabilidade pós-tratamento

Não é raro encontrarmos quem diz: "O Joãozinho usou aparelho nos dentes, mas depois que tirou voltou tudo". A percepção das pessoas quanto aos problemas de oclusão é, até certo ponto, distorcida. Normalmente só se vêem as más-posições dentárias mais evidentes, dos dentes anteriores, e mesmo assim quando a coisa é muito visível. Pequenos problemas de alinhamento, mordidas abertas, mordidas cruzadas ou profundas são solenemente ignoradas. Nota-se que a pessoa não tem um sorriso perfeito, mas não se sabe bem porque.

Durante o tratamento ortodôntico, os pequenos desalinhamentos são evidenciados, principalmente quando se instalam os primeiros arcos de nivelamento. Ora, cola-se um bracket em cada dente, bem no meio, depois passa-se um fio por todos os brackets. O fio que deveria passar retinho fica todo cheio de curvas, acompanhando o posicionamento de cada dente e deixando claro que o alinhamento está deficiente. Isso faz com que os familiares e o próprio paciente tomem consciência desses fatos.

A expectativa dos envolvidos (paciente, seus pais e, claro, o ortodontista) é que o problema seja resolvido o quanto antes. É claro que a ritmo do tratamento vai depender de diversos fatores, nós já escrevemos sobre isso, mas todos têm pressa. No final, porém, a correção não é estável. As recidivas ocorrem com bastante frequência, por isso são usados os aparelhos de contenção. Mesmo tendo utilizado a contenção por vários meses, ainda não estaremos livres das recidivas, principalmente quando o paciente tem mais de 30 anos. O problema é que os apinhamentos são inerentes à raça humana e aumentam com a idade. O Prof. Leopoldino Capelozza Filho diz que o apinhamento é a ruga da boca, ou seja, você envelhece, o rosto enruga, os dentes apinham, fazer o que? Então, quando o pai vê o moleque com os dentes alinhados, acha que isso vai ser pro resto da vida. Se o guri não usar a contenção, a recidiva é líquida e certa, em algum grau. É claro que não volta TUDO ao que era antes, mas algum grau de recidiva é de se esperar, mesmo com contenções longas.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Foi só falar...

Pois é, foi só falar e agora todo mundo resolveu ser dentista... não, não é bem assim. Parece que todo mundo agora resolveu achar que pode dar palpite e ganhar dinheiro, mas estudar e botar a mão na boca dos outros, neca. Pois vejam só:

"Uma das novidades nas prateleiras é o livro Belíssima aos 40, 50, 60, 70... (Ed.Conex), da especialista em medicina estética Carla Sallet. Há orientações sobre cosméticos, exercícios físicos e até de cuidados com os dentes."

Pois a doutora se acha em condições de dar conselhos sobre cuidados com os dentes! Será que eu também posso virar cirurgião plástico? Ouvi dizer que eles ganham bem...

Marketing

De novo:

Em outro post, eu reclamei dos publicitários e dos problemas que eles trouxeram para a odontologia, transformando um tratamento de saúde em um produto a se vender. Eu não costumo falar mal de pessoas especificamente aqui, mas tem um que me incomoda: seu nome é Antonio Inácio Ribeiro.

O homem não é dentista, é publicitário com mestrado, doutorado e outros "ados" em marketing, mas ele só vê dentista na frente dele. Impressionante! Fundou uma certa Odontex, empresa que edita livros de odontologia e vende implantes. A maioria dos livros é de... Antonio Inacio Ribeiro. Veja só alguns títulos:
  • Marketing ao sucesso profissional liberal
  • 100 motivos para ir ao dentista
  • Sucesso em Odontologia
  • Marketing odontológico
  • Atendente de consultório dentário
  • Condomínios odontológicos
  • Odont'humor
  • Tudo sobre implantes dentários

Pelo jeito, ele sonhava em ser dentista, mas achou mais confortável arrancar dinheiro dos dentistas, afinal de contas é muito mais fácil escrever e vender livros pra esses idiotas do que estudar a vida inteira pra aprender a tratar canais. Por incrível que possa parecer, ele pensa que é dentista mesmo, tanto que escreveu esse último título que eu citei, "tudo sobre implantes dentários". Como é que um cidadão que NÃO É DENTISTA pode saber TUDO sobre implantes dentários? Ora, eu sou dentista, com mestrado e doutorado em odontologia, e não sei tudo sobre implantes nem sobre qualquer outro tema na odontologia. Mas o "doutor" Inácio sabe. Pelo menos sobre implantes ele sabe.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Solidão

Atenção: este é um post de teor pessoal.

"Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia
E acho que será pra sempre, mas sempre não é todo dia"
Oswaldo Montenegro
Inveja. Eu gostaria de ser menos cercado de pessoas do que eu sou hoje. Solidão me faz muito bem. Eu adoro ficar sozinho, ler um livro, ver TV (se tiver cabo, porque a Grobo ninguém merece) ou bricar com a internet. Cada vez menos as pessoas me fazem falta, e eu sei bem o motivo: das que eu conheço, 99% são loucas ou têm caráter duvidoso, quando não apresentam as duas características. Por "pessoa de caráter duvidoso" entenda "mau-caráter" mesmo, se quiser ser menos delicado.
Encontrar uma pessoa que seja razoavelmente racional e razoavelmente honesta é uma raridade. Eu conheço pouquíssimas... deixa eu ver, contando nos dedos da mão esquerda... sobraram dedos. Essas pessoas, por mais que não estejam nem aí pra mim, acabam se tornando meus melhores amigos. Porque eu não suporto falta de caráter. Digo sempre às minhas filhas, quando elas acham alguém feio: "Feiura não é defeito. Defeito é ser mau-caráter".
O pior de tudo é que eu sou obrigado a conviver com essas pessoas no meu dia-a-dia. Se eu pudesse me isolar mais, ligar meu MP3 com fone de ouvido, abrir meu livro e ficar assim o dia todo, seria excelente. Acabo ficando com inveja do personagem da música, que acordou mais só do que merecia. Eu acho que isso, pra mim, seria meio difícil, porque eu merecia muito mais solidão do que eu tenho. Solidão é uma bênção, assim como o silêncio. Que maravilha, ficar só e em silêncio, para ouvir a própria respiração, sentir o coração batendo, sem ninguém pra incomodar, sem vizinhos pra tocar música ruim, sem cachorro latindo.
Nem precisa ser todo dia.

domingo, 22 de janeiro de 2006

Marketing

Eu odeio marketing. Eu odeio publicitários. Eles são um dos motivos da grande derrocada da odontologia como profissão no Brasil. Os publicitários e seu decantado marketing descobriram um mercado ainda inexplorado, cheio de imbecis. Aconteceu assim: a publicidade vivia um tempo difícil, não tinha mais de onde tirar dinheiro, mas alguns espertalhões descobriram que eles podiam arrancar dinheiro dos dentistas, completos idiotas que só sabiam tratar dentes e não viviam no mundo real.

Pois bem, publicitários são espertos, muito mais espertos do que dentistas, assim convenceram os infelizes que eles precisavam urgentemente vender a odontologia como um produto de mercado, e não como um tratamento de saúde, que ela de fato é. Então usaram as técnicas de convencimento que aprenderam na faculdade e conseguiram fazer até com que os idiotas dos dentistas mudassem o código de ética profissional para que eles (os publicitários) pudessem arrancar dinheiro deles (os dentistas). Ou seja, nós mudamos as normas da nossa profissão para permitir que outros profissionais ganhem dinheiro às nossas custas. Vem, doutor, vem falar que eu estou exagerando quando digo que os dentistas são um bando de debilóides. Briga comigo, quero ver!

Antes era proibido fazer propaganda. Eu acho isso muito justo, porque na propaganda todo mundo é maravilhoso. Qualquer um pode dizer: "Eu sou bom, faço isso e aquilo, sou capaz", sem o ser de fato. Eu quero ver é na hora de fazer, mas aí o cliente já foi fisgado, não tem mais como escapar. Marketing e propaganda é muito bom pra dentista ruim. Quem é bom não precisa disso, mas agora, com a propaganda liberada pelos 'inteligentíssimos e espertíssimos' dirigentes da odontologia, quem não faz propaganda, não importa se é bom ou não, não tem clientes. Sobra.

Agora, além de sermos extorquidos pelo governo, somos também pelos publicitários. Eu gostaria de ver todos os publicitários amarrados dentro de um saco, sendo jogados no meio do mar. Acho que a humanidade ganharia muito.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Espelho da vida

Catei essa tirinha lá no Malvados porque achei ótima. Às vezes eu faço isso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Anestesia

Recebi por e-mail de um colega:

"Gel pode substituir anestesia tradicional

Com receio da anestesia aplicada por seu dentista? Seus dias de sofrimento na cadeira do consultório podem estar chegando ao fim. Um novo gel anestésico foi testado por pesquisadores belgas que buscaram determinar sua eficiência quando comparado a outros métodos anestésicos tradicionais.

O novo produto se destaca por não ser injetável, aspecto que reduz sensivelmente a rejeição de pacientes pelo método. Uma amostra de 170 pacientes foi avaliada segundo os efeitos anestésicos obtidos com o gel ou com a anestesia tradicional, durante procedimentos para tratamento de periodontite.

De acordo com a revista Journal of Periodontology, a maioria dos pacientes preferiu a aplicação do gel anestésico, mesmo diante de uma discreta perda do efeito esperado com a anestesia injetável tradicional. Esse achado provavelmente se deve à ausência de desconforto para o paciente após o procedimento que emprega o novo produto."

Referência: Journal of Periodontology

sábado, 14 de janeiro de 2006

Anarquia

Na descrição deste blog eu me classifico como anarquista. Anarquia, claro, no sentido de ausência da hierarquia, que é uma das piores doenças do ser humano: acreditar que uns são mais do que outros. Eu tenho horror a hierarquias, de qualquer tipo.

A pior de todas as hierarquias é a que eu chamo de "hierarquia invertida", ou seja, a idéia de que alguém está em posição superior quando, na verdade, está em posição inferior. Vou dar só um exemplo: você acha que o presidente da república é uma autoridade? Pois saiba que ele é seu empregado. Sim, você pode nem ter votato nele, mas a maioria dos brasileiros votou e ele foi eleito para administrar nossos bens. Nós pagamos o salário dele. Ele está lá para nos servir e não o contrário. O mesmo se aplica a vereadores, deputados, senadores, o síndico do seu prédio, o presidente da associação, do CRO, do CFO (ops, você votou nesse?) e a todos os que exercem cargos eletivos ou de confiança no processo democrático. Mas todos esses indivíduos nos passam a impressão de que podem mandar em nós. E podem, porque eles têm a polícia do lado deles.

Na minha clínica eu tenho uma secretária. Eu, como dono da clínica e sendo quem paga o salário da D. Espectronilda, tenho, teoricamente, o direito de mandá-la fazer coisas. Pegar uma bisnaga de resina, lavar e esterilizar o instrumental, varrer o chão. Mas como eu tenho horror a hierarquias, eu sempre peço por favor. Ainda que a D. Espectronilda tenha um QI de ostra e se pareça fisicamente com o Darth Vader, eu peço com toda a gentileza, afinal ela é um ser humano, em nada inferior a mim. Se ela não fizer o que eu peço da forma que eu espero, eu interrompo nosso relacionamento, ou seja, demito-a. Ela não é obrigada a fazer o que eu peço, assim como eu não sou obrigado a pagar seu salário se ela não cumpre o que eu espero dela. Da mesma forma, se ela começa a faltar ao serviço, adeus.

Por outro lado, eu tenho uns empregados que estou louco para demitir. São muito porcarias, gastam meu dinheiro de forma irresponsável, faltam ao trabalho sem a menor compostura, se fazem de grande coisa e ainda se acham mais do que eu. Eu estou tentando arrumar um jeito de demitir esses deputados, alguém aí sabe como? É por justa causa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

10 Mitos da Ortodontia 7

O tempo que dura um tratamento

Nenhum tratamento ortodôntico é igual ao outro, assim como não há dois seres humanos iguais. Eu já tive a oportunidade de tratar gêmeos idênticos, que tinham dentes completamente diferentes. Bom, completamente não, mas eram diferentes nas posições que ocupavam na arcada e, assim, os tratamentos foram diferentes também.

O mais importante de se ter em mente quando se inicia um tratamento é a máxima: "a pressa é inimiga da perfeição". É a mais pura verdade. Eu nem diria que um tratamento feito rapidinho fica mal feito, mas o cliente sofre mais. O custo biológico não compensa os pagamentos mensais a menos. Cada dente tem o seu próprio ritmo e é preciso respeitá-lo, sob pena de causar prejuízos irreparáveis. Normalmente a pressa em se terminar um tratamento resulta, no mínimo, em falta de acabamento no caso e algum nível de reabsorção radicular.

O acabamento é o refinamento do caso. É a fase em que o ortodontista faz movimentações mínimas para atingir a posição exata e precisa de cada dente, trabalham-se as inclinações das raízes e o engrenamento da oclusão. Essa fase é importante porque, muito além da questão estética, contribui para evitar recidivas. As inclinações, especificamente, são de extrema importântica para a estabilidade pós-tratamento. Já a questão das reabsorções é mais complicada: além de serem irreversíveis, podem levar à perda do dente. Essas reabsorções são relativamente comuns no tratamento, em pequenos graus. Quando a força utilizada para a movimentação é exagerada, as reaborções se tornam maiores e problemáticas.

Outro fator de importância é a idade do paciente. Jovens têm o metabolismo mais acelerado, os tecidos mais vascularizados e flexíveis, então é de se esperar que a movimentação dentária desses pacientes seja mais fácil e rápida, o que não significa que o tratamento seja mas curto. Como você pode ver, o tempo que dura um tratamento depende de inúmeros fatores, como a idade do paciente, o tipo de má-oclusão que se apresenta, a colaboração do paciente, suas condições de saúde, a velocidade de movimentação que o dente oferece, entre outras.

Mais uma vez eu afirmo: em ortodontia, a pressa é inimiga da perfeição.

sábado, 31 de dezembro de 2005

Feliz Ano Novo

Hoje é meu aniversário. 4.3 e contando. É meio estranho fazer aniversário no último dia do ano, nunca tem festa exclusiva, sempre mistura com a festa de ano novo, estranho. Mas eu já me acostumei a fazer um balanço do ano que se vai, então vejamos:

2005:
  • 3 livros: Tu carregas meu nome (Norbert Lebert e Stephan Lebert), De Beirute a Jesusalém (Thomas Friedman) e A IBM e o holocausto (Edwin Black). Não entram nessa conta os livros de Odontologia, muitos, muitos nesse ano.
  • Uma tese de doutorado, INTEIRA!!!
  • Muitos defeitos no carro, que já está pedindo aposentadoria.
  • Minha mulher virou chefe de departamento na faculdade em que ela leciona.
  • Comprei mais um violão (agora são 8 no total).
  • Troquei o número do celular (e uso muito pouco).
  • Viajei muito, a trabalho, muito mais do que eu gostaria.
  • Nenhum aluno ficou de exame, na minha disciplina. Foi a primeira vez que isso aconteceu.
  • Finalmente instalei o Windows XP no meu computador, e estou gostando muito.
  • Pela primeira vez fui convidado a ministrar um curso em outra cidade.
  • Comprei uma câmera digital nova.
  • Passei por várias pequenas cirurgias, para remover hemangiomas e pólipos cutâneos.
  • Comecei a praticar natação, como exercício físico. Estou indo bem.
  • Escrevi vários artigos para revistas.
  • Comecei este blog.
  • Refiz o template do meu site oficial. Ficou parecido com um blog.
  • Assisti todos os filmes da série "O senhor dos anéis". Achei legalzinho. Mais ou menos.
  • Estourei o cartão de crédito duas vezes (hehehe). Já está tudo bem, agora.
  • Mudei minha mesa de lugar.
  • Comecei um álbum com as letras das músicas que eu gosto de tocar. Está indo bem.
  • Não fui à praia, nem uma vez.
  • Terminei os tratamentos de vários clientes no consultório
  • Minha mulher abriu um centro de depilação, eu ajudei na infra-estrutura.
  • Bebi cerveja Erdinger, deliciosa. Muita!
  • Tomei chopp no Bar Léo, em Sampa. Menos do que eu gostaria.

2006:

  • Quero ir à praia, pelo menos uma vez.
  • Beber mais chopp. Êta, coisa boa!
  • Tirar mais um hemangioma, de trás da orelha.
  • Continuar o álbum de letras de músicas.
  • Não parar com a natação.
  • Melhorar meu site oficial. Ainda faltam umas coisas com que eu sonho e não consegui fazer.
  • Conhecer o Maranhão. Tenho bons amigos por lá.
  • Trocar as cordas do violão.
  • Começar outra turma da especialização em Odontopediatria.
  • Estudar programação em PHP.
  • Passar o carnaval em uma fazenda. Preciso de um amigo fazendeiro, com certa urgência :^)
  • Parar de fazer listas do que eu fiz e do que eu quero fazer.

Por fim, a frase do ano: "Ladrão é o Inter, que queria roubar o título que o Corínthians comprou"

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

10 Mitos da Ortodontia

O MAIOR DE TODOS - O APARELHO DE GRAÇA*

Hoje é comum oferecerem aparelho ortodôntico grátis. Eu ouvi falar disso há alguns anos, em um curso de marketing. Antes de tudo eu preciso avisar que eu acho marketing muito bom pra quem é incompetente. Dentista que não presta precisa fazer propaganda. Mas naquele tempo eu era jovem, inocente, achava que isso poderia me ajudar em alguma coisa...

Bom, o palestrante perguntava aos ortodontistas se eles cobravam a montagem do aparelho e todos responderam sim. Então ele argumentou: “Se você não cobrar a montagem e aumentar um pouco o preço da manutenção mensal, ao final de 18 meses, que é o tempo médio de duração de um tratamento ortodôntico, terá ganhado mais do que ganharia se cobrasse a montagem e a manutenção nos preços normais.”

Legal, você disse que não cobrava, cobrou até mais do que o normal e todo mundo fica feliz. Só tem um problema: você mentiu. Descarada e vergonhosamente, mentiu na primeira consulta com o seu cliente. Mentiu no começo de uma relação que deve durar um ano e meio, e que deveria se basear na confiança mútua, pois o cliente confia que você vai fazer o tratamento direito e você confia que ele vai colaborar usando e cuidando dos aparelhos.

Eu acho que o dentista que faz isso deveria ir preso. Sem meio termo. Porque, se por um lado ele mente para o seu cliente, por outro ele joga no lixo a dignidade da profissão. Alguns clientes me perguntam porque eu cobro o aparelho, e eu sou obrigado a dar uma aula de dignidade para a pessoa. Sou obrigado a explicar que TODO MUNDO COBRA, só que alguns mentem e eu não. Que ninguém trabalha de graça e, se trabalhar, é porque não investiu na sua formação e não se valoriza como profissional. Se o profissional não se valoriza, o cliente o valorizará?

Por outro lado, essa história é exatamente igual a conto do bilhete premiado. O cliente acha de deu uma de esperto, conseguiu de graça um aparelho que o vizinho pagou caro, enganou o ortodontista, aquele otário. Mas na verdade, quem sai depenado, quem é o otário é o cliente, que ouviu uma mentira deslavada, fez que acreditou e acabou pagando mais por um tratamento desonesto.

* Este post gerou outros.  Siga a discussão em 

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

O meu rico dinheirinho

Cinco deputados abriram mão do salário extra de R$ 25,7 mil que serão pagos aos parlamentares pela autoconvocação do Congresso Nacional.

Pois é, nossos "nobres" representantes aderem à mamata de receber quase 26 milhas cada, para passar as férias mais abonados. Eu, que só tenho 30 dias (e olhe lá) com o big salário que a faculdade paga, fico maravilhado. Esses senhores merecem. Eles trabalham duro o ano todo, estudaram muuuuito para chegar onde chegaram, renunciam a tantas coisas para servir ao país, na nobilíssima missão de aprovar projetos que vão beneficiar a eles mesmos, aos amigos deles, aos parentes deles, aos que pagam propinas para eles...

Eu não mereceria isso. Eu só estudei a vida toda, vejam só. Eu até tive bolsa de estudo. Eu sou um professor universitário, um curador de dor de dente, um pesquisador. Não mereço receber 26 mil reais para passar as férias. Eu deveria é pagar para trabalhar, pra deixar de ser besta.

Negócio é o seguinte: vou me candidatar. Eu sei que não precisa estudar, não precisa se esforçar, não precisa trabalhar. É só ter dinheiro pra fazer campanha - ou conhecer um Marcos Valério que tenha - para ser eleito. Depois é só alegria, desde que você não seja cassado (ou caçado?) pelos outros "nobres". Bom, mas isso só acontece se você não for amigo deles. Aos amigos, tudo, aos inimigos, a conta.

Em tempo: aos cinco que renunciaram ao dinheiro, nada de elogios. Se renunciaram é porque estão ganhando em outra frente, e eu duvido que seja dinheiro honesto.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Casos de um doutorado VI

Zero

O nome do cara é José Roberto, mas o apelido é Zero. É um daqueles sujeitos que, de tão grande, fazem a gente se sentir maior ainda. Não que ele seja fisicamente grande, ele é um Ser Humano (assim mesmo, com maiúsculas) enorme. Existem pessoas que são grandes e nos fazem sentir pequenos. São aqueles grandes que não nos deixam esquecer que o são. Pois o Zero é dos grandes que não faz a menor questão de ser. Ele simplesmente é. E isso faz toda a diferença.

Ele é aquele cara que eu encontrei no meu primeiro dia em São Paulo. É o cara que me levou pra uma casa com pizza, cerveja e amizade quando eu não tinha pra onde ir. Uma pessoa que sempre enxerga o lado bom dos outros, mesmo quando esses outros estão querendo prejudicá-lo. Que é capaz de se prejudicar para ajudar a um amigo, ou a alguém que nem amigo é, só conhecido. Já o vi brigar com o técnico do laboratório para ajudar um aluno da graduação. Já vi ele pagar passagem para uma mulher no ônibus e ficar sem dinheiro pra voltar (eu tive que dar o passe pra ele, se não ele ia dormir no terminal). Grande sujeito, o Zero.

E grande cientista. Daqueles sem ciúme da sua produção, sem orgulho de estudar na USP, sem estrelismo, com humildade e simplicidade. E, como não poderia deixar de ser, ele consegue as coisas. Não sem esforço, porque tudo depende de inspiração e transpiração em doses mais ou menos iguais, ou nem tão iguais assim, mas sempre os dois. O Zero tem conseguido, além de uma legião de amigos, comprar seus pequenos luxos, realizar sonhos, sanar desejos.

Vida longa a você, meu amigo, que a humanidade se espelhe no seu jeito de ser e na sua filosofia de vida, tão ciente do próximo e tão despreocupado consigo mesmo. Que todos os seres deste planeta se orgulhem de conhecer uma pessoa assim, pois elas são o sal da terra.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Os dentes do Tevez

Diagnóstico não solicitado pelo paciente

Eu acho que o maior patrimônio do futebol brasileiro são os seus jogadores. Nunca houve um país com maiores ou melhores jogadores do que o Brasil. Não escrevo isso com ufanismo, com orgulho da pátria, até porque eu não ligo pra futebol, pra mim é um esporte como outro qualquer. O problema é que eu sou um dos poucos brasileiros que não liga pra futebol, então eu acabo tendo que entender um pouco, até pra não boiar nas conversas em torno da garrafa de cerveja.

Então eu vejo um grande time brasileiro importar um jogador de onde? Da Argentina. Justo da Argentina, rival histórica, dona da empáfia e da ousadia de querer comparar um bom jogador decadente com aquele que sempre foi, inapelavelmente, o maior gênio da bola de todos os tempos. Com o gênio que soube administrar a fama, que nunca se envolveu em escândalos e que é, ainda hoje, referência no mundo todo quando se fala em jogar futebol.

Pois eles importaram o jogador, a despeito do enorme número de talentos que o Brasil exporta. Esse jogador fez sucesso, foi recebido até pelo presidente da república. Ora, eu - que estudei a vida toda, me dedico de corpo e alma à minha profissão, formar jovens que vão cuidar da saúde bucal da população - ganho pouco e nunca fui recebido por um presidente. Mas não é esse o meu objetivo hoje. Hoje eu quero falar dos dentes do Tevez. Dos do Lula eu nem ouso falar, eles podem me expulsar do partido...

Bom, eu sou ortodontista, já vi muita coisa na vida, mas dentes iguais aos do Tevez eu estou pra ver. Que coisa terrível! Será que o homem não dispõe de uns trocados pra tratar aquilo? Sim, porque, pelo que ele deve ganhar, o preço do tratamento odontológico é ninharia. Ele deve gastar mais comprando meias. O pior é que ele parece que tem orgulho daquela dentuça, vive rindo e mostrando aquela obscenidade para a TV, como se tivesse um ovo cozido pelando de quente sobre a língua. Não consegue fechar a boca direito, pobrezinho.

Opa, agora me ocorreu uma coisa: será que, por ficar eternamente com a boca aberta, ele respira mais do que os outros? Talvez aí more o segredo do sucesso do cara: ele, com aquele bocão arreganhado, respira todo o ar disponível, enquanto os outros jogadores só dispõe das narinas para esse serviço. Tá, eu sei que não é isso, mas eu não resisti. Eu sei que a respiração bucal é menos efetiva que a nasal, ele deve ter adenóides ou qualquer outra barreira mecânica que impede a respiração nasal, por isso abre a boca, a musculatura entra em desequilíbrio o que favorece o estreitamento do palato (atenção, não é pálato, é palato, com a tônica no “la”, Ok?), resultando em mordida cruzada posterior e mordida aberta anterior, o que lhe dá a aparência de ter o tal ovo cozido quente na boca. Uma cirurgia simples, seguida de expansão palatina, já ajudaria no caso, apesar de que eu acho que para resolver de vez o problema seria necessário um tratamento mais agressivo, provavelmente cirurgia ortognática. Mas eu não examinei a boca do argentino. Fica aqui meu oferecimento: se ele quiser eu posso fazer um orçamento. Juro que não vou cobrar a mais por ele ser rico. Nem por ser argentino.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Patrimônio


O que me entristece é que, para ser campeões brasileiros, os caras tiveram que pagar pau pro argentino, veja só...

Imagem roubada do Kibeloco

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Casos de um doutorado V

Enganos

Ela é colombiana, foi fazer pós graduação na USP. Levou um trabalho para publicar no congresso do IADR, em Estocolmo, parte da programação do seu doutorado. Lá sempre se fazem festas para as delegações de cada país e, no dia da festa brasileira, lá estava ela, com crachá da USP pendurado quando vê uma turma de rapazes falando alemão. Ela, que já estudara alemão na Colômbia e até falava direitinho, foi lá praticar um pouco e conhecer alguns dos bonitões. Eram estudantes de pós-graduação da Universidade de Berna, Suíça.

Ela chegou, conversou e se encantou com um dos rapazes. Conversaram muito, trocaram e-mails, telefones... começaram a se comunicar mais depois do congresso, acabaram se apaixonando e resolveram colocar as coisas a limpo. Então ele descobriu que ela não era brasileira e ela descobriu que ele era italiano e não suíço.

Ele pensava que ia namorar uma brasileira com uma bela bunda. Ela achava que ia pegar um suíço com uma bela conta bancária. No final, não havia conta. Nem bunda. Estão casados até hoje, moram no Brasil e se amam muito.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Casos de um doutorado IV

O susto - Onde é que eu fui me meter?

Eu já citei o Zero por aqui. Pois da segunda vez que eu fui a Sampa eu já era amigo do Zero e morava com ele na república. Lá também moravam o Marcos e o Glauco, dois cariocas que, como eu, tinham casa e família em outra cidade e só iam a SP nos dias de aula. Eu não os conhecia e o Marcos acabou aparecendo na terceira semana. Ele é um alemão alto e branquíssimo, olhos azuis e espírito de menino. Um dos maiores cientistas que eu conheci naquela faculdade. Chegou no departamento, nos conhecemos, combinamos cerveja e pizza depois da aula, claro.

Saímos os três juntos da facu, íamos a pé para casa, mas no caminho atravessávamos um terreno baldio, mato alto, ainda dentro do campus, mas bem deserto e isolado. Lá no meio desse terreno o Marcos chama a atenção do Zero:
- E aí, vamos?
- Você trouxe?
- Tá aqui!

Eles praticamente sussurravam, com aquele ar de coisa proibida, enquanto o Marcos tirava da maleta uma sacola de supermercado amarfanhada, no maior segredo. Eu pensei com os meus botões: "Putzgrila, onde eu fui me meter? O que é que esses caras vão aprontar?
De dentro da sacola apareceu uma garrafa de refrigerante PET de 500ml. Dentro da garrafa, pedras de gelo seco. A garrafa foi passada ao Zero, que fez xixi dentro. Tampou a garrafa, jogou longe e saiu correndo feito louco. Eu e o Marcos atrás. Eu ainda não sabia o que estava acontecendo quando ouvi: BUUUUUUUM!

O gelo seco, em contato com água (ou outro líquido similar) vaporiza, a garrafa fechada cria pressão e explode, fazendo um barulhão e espalhando o líquido pra todo lado. Era uma ação terrorista, eu participara sem saber, ainda correndo com o coração a mil e rindo até perder o fôlego. Depois fomos para casa, ainda ofegando, eles me contando as histórias de outras bombas, uma que eles colocaram embaixo de um tijolo que sumiu depois da explosão, outra que explodiu antes do tempo e eles saíram molhados (sabe do que...), uma que até hoje não explodiu. Depois, como combinado, cerveja e pizza. Não há pizza como a de São Paulo. Não há cerveja como a que a gente toma com os amigos. O Marcos é um amigo de quem eu tenho saudades, não o vejo há tempos, mas não me esqueço dele.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

No orkut

Tenho conta no Orkut já há algum tempo, mas tenho preguiça de fuçar. Hoje, meio estressado, recebi um emeio dizendo que alguém tinha deixado um "scrap" pra mim. Fui lá, li e comecei a cavoucar as comunidades, quando topei com uma: "Todo dentista odeia..." que tem frases incríveis. Selecionei algumas:

- Se seu dente dói quando bebe água, modifique seus hábitos, beba cerveja!

- Não me diga que a restauração ficou alta depois que eu tirar a luva!!! Senão, vai pra casa assim mesmo. Toma mingau... não precisa mastigar!!!

- Se estiver gripado ou resfriado, seja delicado... ligue antes e remarque a consulta. Se fungar aqui eu vou enfiar um rolo de algodão no seu nariz!!!

- Seja realista,vc nunca cuidou, agora dê-se por muito satisfeito se ficar bem parecido com o orignal. Igualzinho é impossível. Só nascendo de novo.

Será que todo dentista tem vontade de falar isso pro paciente, de vez em quando?