Normas

Da Paraíba para o mundo, com amor:

Todo o material publicado nesta página representa o ponto de vista parcial e preconceituoso de um indivíduo do século passado. Se você achar aqui afirmativas que lhe pareçam sexistas, xenófobas, racistas ou, de qualquer outra maneira, ofensivas a seus pontos de vista, pare de ler imediatamente. Ou prossiga, a seu próprio risco. Ou não.

Use antes de agitar: leia as normas do blog e lembre-se: comentários são moderados. Anônimos não serão publicados.

E aproveite que eu sou professor: se você achar que eu posso ajudar, mande um e-mail para mrteeth@ghersel.com.br

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Desespero

E talvez, desesperado com tanta devastação
Pegou a primeira estrada sem rumo, sem direção
Geraldo Azevedo (Saga da amazônia)

Deve estar duro mesmo, ganhar dinheiro honestamente com Odontologia: só hoje recebi propaganda de duas instituições do Paraná oferecendo cursos e mais cursos de especialização, a preços absurdos.

A impressão que dá é que ninguém mais consegue sobreviver de consultório, todo mundo resolveu virar professor, instituições aparecem como moscas rondando carniça, faculdades das quais nunca se ouviu falar, professores completamente desconhecidos, com currículos altamente duvidosos. Hoje recebi folhetos (bonitos, por sinal) da Uningá e da Cesumar, ambas do Paraná, no desespero de arrumar alunos para seus cursos.

Como se Mato Grosso do Sul fosse terra de ninguém. Como se aqui não houvesse universidade, conselho, abo. Como se aqui não houvesse mestres e doutores. Meio de mato, fim de mundo. Mas os dentistas broncos daqui devem ter um dinheirinho pra gastar, então vamos ciscar nesse terreno, quem sabe sai alguma minhoca.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Sobre quem paga e quem recebe

Enquanto as piranhas comem, temos que passar ligeiro
Toque logo esse boi velho que vale pouco dinheiro.
Almir Sater (Travessia do Araguaia)

Eu sei que é um direito de qualquer criatura que esteja desembolsando uma certa quantidade em dinheiro pechinchar. Eu sei que, nestes tempos bicudos, de pouco tutu na mão da gente e muito nas mãos dos que não merecem, a gente tem que pagar sempre o mínimo possível por um produto ou serviço, mas isso tem que ter um limite.

É que eu sempre me sinto muito mal quando um cliente acha que eu estou cobrando caro pelo tratamento. Eu me sinto desprestigiado, como se ele estivesse me dizendo: "Doutor, seu trabalho não vale isso tudo". Ou seja, eu estudei a vida toda para fazer um trabalho ao qual me dedico de corpo e alma, capricho extremado, atendo meu cliente pessoalmente todas as vezes, uso material de primeiríssima qualidade, tenho consultório bonitinho e confortável, música, ar-condicionado, local de fácil acesso, estacionamento, secretária educada, atendo na hora marcada, etc, etc, etc... e o cliente vem me dizer que meu trabalho não vale o que eu cobro.

Tá, você pode argumentar que não é nada disso, que o cliente só está pechinchando e que isso é um direito dele, mas eu não posso evitar de me sentir assim. Às vezes o cliente me pede um desconto, diz que a vida tá difícil, que ele quer muito fazer o tratamento comigo, então eu arrumo um jeito de dar um desconto bem camarada pra ele: eu não dou o recibo, você não declara aos ladrões de Brasília que me pagou e eu dou um descontão, bem maior do que o que eu pagaria de imposto. Eu já argumentei que sonegar o IR é legítima defesa quando escrevi sobre o Kapaz, os malvados, o "Brasil Sorridente", o Duda Mendonça e a foto da Veja, então não vamos entrar nessa discussão novamente. O problema é quando o cliente acha que esse desconto ainda não está bom. Ontem aconteceu. Eu não arredei o pé, mantive meus preços e o cliente disse que ia fazer o tratamento. Não sei se vai mesmo, mas eu, no fim, me senti melhor.

Me senti como se tivesse conseguido convencer o cliente de que eu valho o que cobro.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

10 mitos da Ortodontia 9

Convênios

No início, dá a impressão de que nós vamos ganhar dinheiro com os convênios, mas isso passa logo. O grande problema é que o convênio só é bom para a empresa que o administra. O cliente paga até mais do que pagaria por um tratamento particular, só que paga bem lentamente e quase não percebe. O profissional recebe muito menos do que receberia por um tratamento particular. Com quem fica a parte boa? Claro, com a administradora.

Aí é que entra a Uniodonto. Eu não sou cooperado, já fui e não sou mais, mas acredito que é o único convênio que não nos rouba, porque é uma cooperativa de Cirurgiões-Dentistas. Se a Uniodonto roubar seus cooperados, estará tirando dinheiro de um bolso para colocar em outro, ou seja, não vale a pena. O contrário também é verdadeiro, se você fraudar a cooperativa, estará fraudando seu próprio patrimônio. Então, se todos tiverem consciência de que esse caminho é válido, estamos conversados. O grande problema da cooperativa – e o grande motivo da minha briga com ela – é que não há restrição de especialidade. Eu, como ortodontista, tinha como concorrentes TODOS os outros cooperados, ou seja, qualquer CD pode fazer tratamento ortodôntico. Numa cooperativa de CD´s isso é uma pena, porque desestimula o estudo e a especialização do profissional: porque eu vou gastar tempo e dinheiro em uma especialização, se eu posso fazer o tratamento e receber tanto quanto um especialista?

Convênios particulares são os piores. Empresas como Pax, Associl e outras, acabam ganhando muito dinheiro com o nosso trabalho. Elas simplesmente fazem a ligação entre o cliente (que paga todo mês) e o profissional, que recebe pouco por seu trabalho. Ficam com a melhor parte, ou seja, a maior parte do dinheiro. Não é vantagem para o cliente ou para o profissional, esse tipo de convênio, inclusive porque os tratamentos mais caros e especializados, como próteses, implantes e tratamentos ortodônticos, normalmente não são cobertos. O cliente tem que pagar por fora, total ou parcialmente.

E tem o último tipo, que agora está virando moda: a administradora faz um contrato com uma associação ou sindicato qualquer, cadastra uma série de profissionais e oferece: o funcionário paga o profissional com um vale, o profissional no final do mês apresenta os vales e recebe à vista. Os valores são descontados em folha do funcionário. Para o profissional é ótimo, porque ele nunca vai ficar sem receber. Por outro lado, o cliente ganha um desconto, que ele negocia com o profissional diretamente. Ótimo, não é? Só que, para ser cadastrado, o profissional é obrigado a comprar um espaço no catálogo do convênio, que pode chegar a $1.200,00. Isso mesmo, mil e duzentos reais!

Ou seja: se você for fazer um convênio, pense muito bem e faça as contas direitinho.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Mudando os rumos da humanidade

Dançarei pelado na cratera da lua
Mesmo sem saber onde termina
A minha e onde começa a sua
Cazuza (Balada de um vagabundo)

E não é que a raça humana continua produzindo inutilidades e gastando energia em idiotices? Pois veja só, pelados e pelantes brigando por um pedaço de areia, como se neste país faltasse areia na beira do mar. Só podia ser coisa de carioca mesmo, ao invés de comprar uma briga que valha a pena, que realmente melhore a vida das pessoas, ficam discutindo se o cara tem ou não o direito de passar a mão na mulher (que, pelo jeito, está gostando) em público.

Enquanto isso, nos gabinetes de Brasília correm soltos deputados, senadores e outros ladrões engravatados, tramando formas de usurpar nosso suado dinheirinho. Será que esses cariocas não poderiam ir se pelar e se apalpar lá no congresso, como forma de protesto? Já que eles gostam tanto de tirar a roupa e brigar, poderiam usar essa prerrogativa para protestar, deixando os bandidos eleitos encabulados.

UAU, que bela idéia!!! Um protesto de pelados! Vou mandar emelho pre eles!

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Convênios

Hoje o tempo está mais firme, abre mais meu apetite
Cura e seca meu bronquite algumas folhas de hortelã
Luiz Melodia (Estácio, eu e você)

Eu acredito que o futuro da Odontologia será a socialização, um processo que está em franco desenvolvimento com a medicina, podendo-se chegar ao ponto em que as necessidades odontológicas da população serão bancadas pelo estado, com os clientes atendidos em clínicas públicas ou particulares sem pagar diretamente pelo tratamento ao profissional. Isso é especialmente importante para que a população de baixa renda tenha acesso a tratamentos de qualidade, principalmente na área de prevenção. O cenário ideal teria três situações hipotéticas:

1. O cliente não tem como pagar pelo tratamento, dirige-se a uma clínica pública (posto de saúde) e é atendido, sem grandes demoras, por uma equipe bem treinada e bem remunerada e um profissional com boa formação na área específica. Nada lhe é perguntado, se ele pode pagar ou não, se tem seguro-saúde, convênio, nada. Ele também não paga pela consulta nem pelo tratamento, que são integralmente cobertos pelo estado. As desvantagens são o atendimento ambulatorial (clínica pública), sem hora marcada e sem continuidade no tratamento, ou seja, para cada atendimento o cliente precisa passar por todo o processo de identificação e fila de espera.

2. O cliente pode pagar por um tratamento um pouco mais diferenciado, dirige-se a uma clínica particular (consultório) e lá apresenta seus documentos que comprovam que ele é segurado por um plano de saúde que cobrirá parte dos custos de seu tratamento. Ele teria sua consulta agendada para um período que o profissional separou para atender pacientes de convênios e faria seu tratamento nessa clínica particular, com hora marcada. A grande vantagem é que o cliente recebe um atendimento personalizado, com hora marcada e continuidade no tratamento, porém este será feito exclusivamente nos horários determinados pelo profissional. Esse cliente paga por um plano de saúde, que se encarregará de repassar ao profissional os valores determinados em contrato.

3. O cliente tem condições de pagar por um tratamento particular, não depende de planos nem convênios e acerta os pagamentos diretamente com o profissional, recebendo em troca o tratamento com todas as mordomias a que tem direito.

Desnecessário dizer que na primeira hipótese o profissional é empregado do estado, concursado, especialista e recebe um salário compatível com sua função e com o número de horas trabalhadas, podendo também receber adicional por produtividade. É obrigado a se atualizar constantemente (ou recebe incentivo para isso) e tem boas condições de trabalho. Para o segundo cenário, os planos de saúde devem ser administrados por cooperativas dos próprios profissionais, pois planos privados normalmente exploram o cliente e o profissional, além de não oferecerem tratamento razoável.

Teoricamente nós temos isso acontecendo agora mesmo. Hoje, no Brasil, existem excelentes postos de saúde com atendimento 24 horas, bons profissionais que são muito bem remunerados e dos quais é exigido um desempenho mínimo, equipes bem treinadas e material de boa qualidade, sem custo para o paciente, que pode ser atendido via SUS e não precisa provar nada. Também temos as cooperativas de saúde, UNIMED e UNIODONTO que, embora não trabalhem juntas como deveriam, são administradas pelos profissionais e oferecem planos de saúde muito bons.

Não é assim?

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Linda

Cabelo Loiro vai la em casa passear, vai, vai
Cabelo loiro vai cabar de me matar
Almir Sater (Cabelo Loiro)


Alguém pode me explicar porque a Linda Cardellini alisou o cabelo?!?

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Mais professor ainda

E a novidade que seria um sonho,
O milagre risonho da sereia
Gilberto Gil (A novidade)

No próximo semestre eu começo uma nova disciplina: Introdução à Odontologia. É uma disciplina do primeiro ano, os alunos são calouros, vindos diretamente do cursinho e da casa do papai, a maioria deles sempre teve tudo na vida (faculdade particular, $$$).

Vai ser extremamente desafiador, pois até agora eu só trabalhei com alunos "domados", ou seja, a Ortodontia, no quarto ano - quando eles já entenderam que serão profissionais e devem ter uma postura de acordo - ou na pós-graduação, quando eles já se formaram. Estou muito excitado com a perspectiva dessa nova experiência, espero me sair bem, afinal de contas é o primeiro contato da moçada com a Odontologia. Eu devo convencê-los de que essa é uma profissão digna e respeitável, que lhes trará realização pessoal e lhes permitirá sustentar suas famílias sem descambar para a bandidagem.

Tarefa árdua, mas eu vou encarar.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Cursos e mais cursos

Eu admiro o que não presta, eu escravizo quem eu gosto
Eu não entendo, eu trago o lixo para dentro
Marisa Monte (Tudo pela metade)

A Odontologia está em uma situação que beira o ridículo: profissionais mal-preparados mentindo para os clientes que cobram pouco, os clientes acreditando e os poucos dentistas que estudaram bastante se agarrando pelas paredes para conseguir pagar as contas. Nesse universo, ministrar cursos é uma beleza de acréscimo na renda, chegando a ser a principal atividade para alguns. É porque um diplominha a mais na parede pode ser uma bela jogada de marketing, então, quanto mais inútil o curso, melhor, porque não é preciso muito esforço para conseguir o tal diploma.

Talvez por isso a ABO esteja promovendo um "Curso de Odontologia Médica", assim, todo com letras maiúsculas, nome pomposo, tudo! Leia a matéria e, se você entender do que eles vão falar e qual a utilidade prática desse curso, por favor, me explique. Será que se eu estudar o vetor de força que atua sobre um bracket colado abaixo do ponto de resistência da raiz do pré molar, em caso de 4 extrações, eu vou aprender mais?

Acho que eu vou lançar um curso sobre "Limitações do marketing na Odontologia", para ensinar aos pobres colegas sobre as armadilhas que os marketeiros usam para nos tirar dinheiro. Será que eu fico rico assim?

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Finou-se

O risultado dessa travissia foi um sucesso triste, Virge-Ave-Maria
O risultado da bramura foi qui o ri levô os vaquêro, o dono, os burro e os boi, ai sôdade...
Elomar (Chula no terreiro)

Bom, então as duas velhas conhecidas do futebol brasileiro deram as caras: empáfia e soberba. Na verdade nossa seleção não jogou o suficiente nem pra chegar onde chegou, contou com a inferioridade técnica dos outros times. Se pega uma Argentina, leva de 4, no mínimo.

Não falo mais de seleção nem de copa, pelo menos não neste ano, prometo.

Toca o barco!

sexta-feira, 30 de junho de 2006

Alemanha x Argentina

"Fome, miséria, incompreensão,
O Brasil é Treta Campeão"
Mamonas Assassinas (Cabeça de bagre)

Argentina jogou melhor, apesar de que eu torci pela Alemanha (fazer o que, tá nos genes, meu avô nasceu lá...). Mas a Seleção Argentina (aka 'curíntia'), no final, deu vexame. Partiu pra ignorância, quebrou o pau, comportamento digno de uma turba terceiro-mundo-católico-ditatorial-latina.

Vergonha, até de dizer que eu moro ao sul do equador. Êta, turminha porcaria!

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Desculpas

"Desculpe o auê
Eu não queria magoar você"
Rita Lee (Desculpe o auê)

Me desculpem, meus 4,5 eventuais leitores, pela explosão intempestiva do post de ontem... eu estava realmente em um estado de espírito dos mais ranhetas, baixou em mim o velho ranzinza e eu rasguei o verbo, mas acho que ninguém merece ler os desabafos dos inconformados. Me rôo de inveja (uau, eu sempre quis encaixar a palavra "rôo" no contexto certo, agora consegui!) das pessoas que conseguem sempre escrever algo leve e bem-humorado. Infelizmente eu não sou assim, paciência.

Mas hoje estou melhor, é aniversário de 13 anos da minha caçula vai ter festa. Eu acho que vou sobreviver a essa festa, vejamos.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Dentista bom!

"Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair... Deus lhe pague"
Chico Buarque (Deus lhe pague)

Eu gosto muito do Rolando Boldrin. Acho que ele tem talento e verdadeiro amor pelas coisas da terra, pela música e pelas pessoas. Assisto sempre ao programa dele, Sr. Brasil, que passa na TV Cultura, mas nunca me lembro do dia nem do horário, de forma que, às vezes, zapeando, eu topo com ele e assisto até o fim.

Ontem foi um dia desses, e ainda teve uma coisinha a mais: ele cantou uma música de sua autoria, cuja letra eu achei e transcrevo aqui (calma, eu vou falar coisas relevantes sobre essa música):

Moda do dente
(Rolando Boldrin)

Tava me alembrando agora, do tempo que eu fui banguela
Boca murcha repuxada, sem sorrir para as donzela
Ai moço que coisa triste, é ter a boca vazia
A gente não tem mais gosto, nem de puxar cantoria

O destino caprichoso, um castigo quis me dar
Eu fui medir força bruta com um baita dum marruá
Ele me apinchou no chão, bati feio em terra suja
Quebrei a cara inteirinha e os denti foi di lambuja

Tô com a boca consertada, graças ao doutor Mateu
Dente emriba dente embaixo, mió que os que Deus me deu
Nem cobrou pelo serviço, entendendo a situação
Sem cantar eu me matava, cantar banguela é que não

Hoje eu tô mais bonitinho, me falou a Graziela
Pois in ante era pouquinho o que eu sorria prá ela
Agora que nem criança, nós gargaia nos namoro
E se rendê as poupança, eu implanto um dente de ouro

Se a gente prestar atenção, o personagem/narrador da história tem verdadeiro apreço por seus dentes, tanto que ficou muito triste por tê-los perdido, perdeu até o gosto por puxar cantoria. Só depois de ter a boca 'consertada' pelo Dr. Mateu é que ele voltou a ser feliz, com dentes até melhores do que deus havia lhe dado - e aqui eu me pergunto o quanto ele havia cuidado desses dentes para achar que uma dentadura de acrílico ficou melhor.

Mas o detalhe que me chamou atenção foi que o Dr. Mateu "nem cobrou pelo serviço", ou seja, a brincadeira ficou de graça pro violeiro. Êta, dentista bom! Sim, porque dentista bom é aquele que vive de brisa: quando está com fome sai lá fora, abre a boca e se alimenta do ventinho fresco da manhã, ou do mormaço da tarde. Quando precisa de roupa é só sair de casa que o vento se encarrega de vesti-lo. O mesmo vale para a mulher e os filhos desse dentista.

E, no final, feliz com a dentadura nova, o violeiro ainda guarda dinheiro para implantar um dente de ouro. Para fazer a boca funcionar ele não tinha dinheiro, mas para embelezar a plataforma ele faz poupança. É triste ver como a minha profissão é execrada pela população em geral. Quando me formei eu achei que ingressava em uma profissão digna, onde eu poderia ajudar as pessoas, sanar suas dores, permitir que um melhor funcionamento da boca melhorasse a alimentação, melhorar sua aparência e me sustentar com meu trabalho. Mas o que eu vejo é que o dentista só é valorizado quando "faz de graça". Nem a uma prostituta se pede tanto.

Hoje eu ouvi de uma colega que eu cobro caro. Ora, eu estudei a minha vida toda, graduação, mestrado, doutorado, sou professor de cursos de graduação e pós-graduação, pesquisador, tenho clínica há quase 20 anos... Raios, se achou caro, procure outro!

Irra!

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Pasta de dentes

"Vivemos sob o mesmo teto, um amor pode durar um século
Você fala, e eu não mais te escuto, nosso amor não passou de um minuto"

Rita Lee (O amor aos pedaços)

Quanto dura um tubo de pasta de dente? Com certeza menos do que deveria. Por ser baratinho e uma coisa que ninguém ousa duvidar da utilidade, não se fala no assunto, mas, como tudo na vida, sempre tem um espertinho fazendo você gastar mais do que deveria.

Eu não sou muito bom de história, vivo esquecendo as coisas, principalmente datas, mas depois da segunda guerra mudial as fábricas de cosméticos dos EUA instituíram um concurso interno para estimular o aumento do uso de pasta de dentes. Todo mundo já usava, mas usava pouco. Não tinha muito pra onde correr, porque tudo mundo sabia que tinha que usar, as campanhas educativas estavam na rua, mesmo assim o consumo era pequeno. Até que um funcionário, que trabalhava na linha de montagem dos tubos, teve uma grande idéia: aumentar o tamanho do buraco no bico do tubo. Assim, quando o consumidor for colocar a pasta na escova, sai mais, ele consome mais e compra mais. Mais dindim no bolso dos fabricantes.



Essa imagem, com o tubo de pasta paralelo à escova, sugere à vítima (você, caro consumidor) que esta é a quantidade correta de pasta. Mas se você pensar um pouco, verá que isso não é necessário. Alguns fatos:

  1. O que limpa os dentes não é a pasta, é a escova.
  2. Pasta de dentes é um cosmético. Ajuda, mas não é imprescindível na escovação. Contém água, perfume, flavorizante (sabor), detergente, abrasivo e flúor (esse, sim, importante).
  3. Uma boa escovação pode ser feita só com água. Aliás, a maioria das técnicas de escovação desaconselha o uso da pasta, para que você possa ver o que está fazendo. Depois de escovar na técnica, aí você pode colocar a pasta e dar uma segunda escovada, para ficar com um sabor agradável na boca e a sensação de um hálito fresco.

O que ninguém diz é que a quantidade pode - e deve - ser menor, principalmente para crianças. Estas costumam engolir um pouco da pasta, que contém flúor. O flúor, embora já tenha comprovado exaustivamente seus efeitos benéficos para os dentes, é tóxico quando ingerido em grandes quantidades. Ora, a água da maioria das cidades brasileiras já tem um pequeno percentual de flúor, então não é mais necessária a administração de flúor sistêmico. Normalmente a quantidade de flúor contido nos dentifrícios (principalmente nos géis) é muito grande, porque eles são feitos para uso tópico. Se ingeridos, podem causar fluorose, a longo prazo.

Então, se você segurar o tubo de pasta de dente perpendicular à escova a apertar com parcimônia, vai usar uma quantidade mais razoável do produto, o que é muito aconselhável. Se você for uma pessoa extremamente nojenta (que sente nojo de tudo) e não suporta a idéia de encostar o bico do tubo na escova de mais de uma pessoa, compre um tubo só pra você. Vai durar uma eternidade.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

As letras das músicas (corrigido)

"Mangueira, a minha música não é de levantar
Poeira
Mas pode entrar no barracão"
Tom/Chico (Piano na Mangueira)

Eu sempre tento colocar um trecho de letra de música no início de cada post, um trecho que tenha algo a ver com o que eu vou escrever. Algumas buscas no Google apontam para o meu blog por causa desses trechos, então eu vou colocar aqui um link com 'trocentas letras de músicas, para quem quiser:

www.webletras.com.br

Divirtam-se!

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Tabelinha

"Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando voce entrou em mim como um sol num quintal"
Belchior (Divina comédia humana)

Aqui em Campo Grande foi feriado ontem. Dia de Santo Antônio, padroeiro da cidade. Êta, feriadinho na hora certa!!! Acordamos tarde, fizemos churrasco, assistimos ao jogo, festejamos, cervejamos, uma beleza.

Os horários dos jogos, aqui, no Centro-Oeste:

13/06 (terça), 15:00h
18/06 (domingo), 12:00h
22/06 (quinta), 15:00h

8ª de final
27/06 (terça), 11:00h (para o primeiro colocado do grupo classificatório) ou
26/06 (segunda), 11:00h (segundo colocado)

4ª de final
01/07 (sábado), 11:00h (primeiro colocado) ou
30/06 (sexta), 11:00 (segundo colocado)

Semifinal (se chegar até aqui, tomara!)
05/07 (quarta), 15:00h (primeiro colocado) ou
04/07 (terça), 15:00h (segundo colocado) e...

FINAL
09/07 (domingo), 14:00h

Aos moradores de outros rincões, lembrem-se que aqui o relógio bate uma hora antes.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Copa do mundo de futebol

"Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Só se eu fosse o rei"
Chico Buarque (O Futebol)

Tá, eu confesso: eu gosto de futebol. Eu gosto de copa do mundo, porque os jogos são bonitos de se ver. Hoje eu vi o melhor jogo da copa até agora, República Tcheca (que os tchecos chamam de Bohemia) contra Estados Unidos. Os tchecos atropelaram os americanos solenemente, mas os gringos também tiveram seus momentos, apesar de não fazerem nenhum gol. Mas foi um jogo bonito, belas jogadas, jogadores habilidosos, uma beleza! Eu só tenho medo dessa seleção tcheca jogar contra o Brasil.

Ichhhh.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

O alvo errado (de novo)

"De tanto levar frechada do teu olhar,
Meu peito até parece, sabe o que?
Tauba de tiro ao álvaro!"
Adoniran Barbosa (Tiro ao alvo)

Eu não vou negar que eu acho o MST e suas sub-siglas baderneiras a maior expressão do subdesenvolvimento deste país. Quando as instituições são desafiadas abertamente, como no caso dos tumultos em Sampa e em MS, patrocinados, segundo as 'autoridades', pela bandidagem organizada, é porque o governo já não governa, a polícia não policia, o judiciário não julga, a prisão não prende, essas coisas.

Agora os baderneiros resolveram invadir a câmara dos deputados. Entraram lá, quebraram tudo (menos a cara-de-pau dos deputados), deram uma sova nos seguranças - que estavam desarmados, pelo jeito - e foram presos. Acusados de depredação do patrimônio público, formação de quadrilha e tentativa de homicídio. E, mais uma vez, a justiça erra o alvo.

É claro que eu sou contra a ação dos baderneiros, são bandidos travestidos de militantes de movimentos legítimos, devem ser punidos na pena da lei, sem dó nem piedade, mas eu começo a duvidar que neste país as punições aconteçam de verdade. Ou, melhor, acontecem, sempre do lado mais fraco. Sem defender a ação dos bandidos, longe de mim uma coisa dessas, mas só preto, pobre, ferrado e detonado é que vai preso. Se o cara é rico, dá um jeito de sair. O Lalau saiu. O Cacciola conseguiu um habas corpus e fugiu para a Itália (deviam prender o juiz no lugar dele). A Suzane está em casa. Quem está a ferros são os Cravinhos, que são mais pobres, embora tão assassinos quanto.

E até agora ninguém falou que quem deveria ser processado por depredação do patrimônio público, formação de quadrilha e outros tantos crimes abjetos são os senhores deputados, que estão lá, bebendo uísque importado e viajando de jatinho, no luxo de seus gabinetes com ar-condicionado. Eu, pra falar a verdade, gostaria muito de dar uns tapas na cara de uns deputados por aí. Aliás, pouquíssimos se salvam: tem o..., tem aquele outro..., tem também o...

Puxa, tá difícil!!!

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Pessoas que "falam verdades"

"Eu não sei dizer, nada por dizer
Então eu escuto. Fala... fala!"
Luli & Lucina (Fala)

Existe um tipo de gente completamente insuportável. São as pessoas que adoram falar 'umas verdades' para as outras. Entupidas de boas intenções, acham que sempre estão fazendo o bem ("eu sei que isso vai te magoar, mas é pro seu bem") e chamando 'nos brios' on infeliz que tem que ouvir as tais 'verdades'. O pequeno detalhe é que a pessoa que ouve não quer ouvir. O pobre coitado, normalmente, já está careca de saber o que vem dali, já está deprimido com a situação, pensa penosamente em uma maneira honrada de sair dessa sem esfregar a cara no chão. Aí vem o sabidão: "Olha, se você não se tocar a casa vai cair e o jacaré te abraça! Eu sei que isso vai te magoar e etc... você tem que acordar, tem que tomar jeito, se não a casa cai, etc, etc, bla, bla, bla".

E o pobre coitado, além de ter que lidar com a situação ainda tem que ouvir do 'bem intencionado' a esculhambação, que é pro seu próprio bem. E agradecer, porque se ficar bravo é um mal-agradecido, pois "eu só fui lá abrir os olhos dele e ele me recebeu com duas pedras na mão!". Pois é, além de estar f*****, ainda tem que limpar, agradecer, rastejar. Ô, situação desgraçada. Eu espero sinceramente, caro leitor, que você não encontre um desses pela frente, apesar de que eu tenho quase certeza que você conhece um assim, que você leu isso e disse: "Esse cara conhece o fulano!"

Não é?

Filosofia de bar

"Se for dirigir, não beba.
Se for beber, me chame!"

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Os dentes do nosso ministro

"Nem unha encardida, nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem"
Edu Lobo-Chico Buarque (Ciranda da Bailarina)

Comentei outro dia aqui sobre os dentes do ministro da Bolívia e vi que no google muita gente acessou este blog para ver o danado. Pois nesta semana eu, antes de abrir a revista Veja, me deparo na capa com uma foto do nosso ministro da justiça, Marcio Thomaz Bastos, exibindo dentes de fazer inveja a qualquer boliviano! Dentes sujos, visivelmente mal escovados, com manchas amareladas de nicotina e anos de cálculo supra-gengival pedindo remoção. Boca de terceiro-mundo, direis. E vos direi, no entanto: concordo.

Assim, o nosso rico rincão se irmana a um dos países mais miseráveis do mundo, no quesito boca de ministro. É um exemplo frustrante para quem batalha no ambiente bucal brasileiro, ver um ministro de estado nesse estado. É, na melhor das hipóteses, um link direto para o subdesenvolvimento terceiro-mundista-católico-latino-tropical. A Bolívia, cujos habitantes são, em grande maioria, pessoas humildes e que lutam tanto quanto nós para sobreviver - se não mais - acaba ficando conhecida por ser o país onde morreu Che Guevara e que deu o maior calote no Brasil, impunemente. Agora, também, pelo ridículo da boca de seu ministro. Mas seria até de se esperar de um país que vive uma realidade de Arábia sem petróleo, com um cocalero na presidência, tivesse um ministro meio esquisito. Nada contra a Bolívia, pelamordedeus, eu admiro o povo boliviano, mas a realidade é que eles pisaram na bola com a eleição desse presidente, tanto quanto nós pisamos elegendo o Lula, mas isso é outra história.

Então eu conclamo os periodontistas do Brasil: vamos fazer uma campanha pela boca saudável do ministro da justiça, para que quando o presidente do Grande Irmão vier aqui não confundir Brasília com La Paz.

Em tempo: será que a foto que eu vi na capa da Veja não é uma montagem? Eu sei que o ministro nunca usou armadura, mas me pergunto se eles não montaram aqueles dentes também...

quinta-feira, 1 de junho de 2006

O futuro

Boa terra, velha esfera, que nos leva aonde for
Pro futuro, quem nos dera, que te dessem mais valor
Almir Sater (Mês de maio)

No futuro eu não vou precisar de computador de mão, vou vender meu Palm. Ou dar de presente para alguém que ainda anda pelas ruas. Eu gosto dele, mas não vou mais precisar, porque o meu computador desktop vai estar sempre à mão.

Eu não vou mais precisar de celular. Hoje eu já não gosto dele, amanhã vou jogar na privada e dar descarga, ficar olhando ele rodar na água e ir embora para onde ele merece: o esgoto. Nunca mais ele vai me incomodar com a sua musiquinha ridícula, me obrigando a parar tudo para falar com uma pessoa com que eu não quero falar.

Eu não vou precisar de telefone também. Conexão de internet está bom demais. Um bom computador, no qual eu possa estar em contato com as notícias do mundo, mas sem interagir com pessoas, porque pessoas me aborrecem cada vez mais. Um computador onde eu possa ver TV e mandar e-mail, quiçá um papo no MSN, algo assim. É incrível como o computador, cada vez mais, colabora para que um nerd eremita se torne ainda mais nerd e ainda mais eremita. Hoje em dia ele é a pessoa que menos me incomoda. É verdadeiro, honesto, brutalmente sincero. Eu o entendo, mesmo que às vezes ele não consiga me entender. Mas ele não me incomoda.

terça-feira, 30 de maio de 2006

Linux

Criar meu website, fazer minha home-page
Com quantos gigabytes se faz uma jangada,
Um barco que veleje, que veleje nesse infomar?
Gilberto Gil (Pela internet)

Estou postando hoje usando o Firefox de dentro do Linux, minha mais nova paixão na informática. Estou apanhando como gente grande, não do Linux em si, que é um sistema relativamente simples pra quem vem do windows, mas é que eu quero instalar meu programa do consultório, que roda em windows, dentro do Linux... aí já viu, tenho que instalar emulador, configurar mil e uma variáveis, uma loucura.

Estou me sentindo meio como quando tive minha primeira aula de clarinete, na flor dos meus 40 anos. Eu toco violão desde criança, comecei com o 7 cordas quando tinha lá meus 14 anos e já conhecia bem o violão de 6, então o clarinete foi uma coisa completamente nova pra mim. Além do mais, resolvi estudar direito, por música, e eu não sabia ler. Ou seja, tive que aprender a ler e a tocar um instrumento completamente diferente do que eu estava acostumado. Aprendi mais ou menos, preciso voltar às aulas, agora que não tenho mais a desculpa do doutorado.

Mas o Linux e seus emuladores estão me tirando o sono, mesmo.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Família

"Vaca profana, põe seus cornos
Pra fora, e acima da manada"
Caetano (Vaca profana)

Então eu recebi uma piada que me fez rir, em um semana em que eu não tive muitos motivos para isso:

A família comia tranqüila quando, de repente, a filha de 10 anos comenta:

- Tenho uma má notícia... Não sou mais virgem! Sou uma vaca!

E começa a chorar, visivelmente alterada, com as mãos no rosto e um ar de vergonha. Silêncio sepulcral na mesa. De repente, começam as acusações mútuas:

- Isto é por você ser como é! - marido dirigindo-se à mulher - Por se vestir como uma puta barata e se arreganhar para o primeiro imbecil que chega aqui em casa. Claro que isso tinha que ocorrer, com este exemplo que a menina vê todo dia!

- E você - pai apontando para a outra filha de 25 anos - que fica se agarrando no sofá e lambendo aquele palhaço do teu namorado que tem jeito de veado. Tudo na frente da menina!

A mãe não agüenta mais e revida, gritando:

- E quem é o idiota que gasta metade do salário com as putas e se despede delas na porta de casa? Pensa que eu e as meninas somos cegas? E além disso, que exemplo você pode dar se, desde que assinou esta maldita TV a cabo, passa todos os finais de semana assistindo a pornôs de quinta categoria e depois se acaba em punhetas, com direito a todos os tipos de gemidos e grunhidos?

Desconsolada e à beira de um colapso, a mãe, com os olhos cheios de lágrimas e a voz trêmula, pega ternamente na mão da filhinha e pergunta baixinho:

- Como foi que isso aconteceu, minha filha?

E, entre soluços, a menina responde:

- A professora me tirou do presépio! A Virgem agora é a Vanessa, eu vou fazer a vaquinha...


Comunicação, comunicação...

terça-feira, 23 de maio de 2006

Sobre a hierarquia

"Faça o favor de me obedecer
Se não brigo com você"
Zeca Pagodinho (Já mandei botar dendê)

Quando eu escrevi aqui sobre hierarquia, não esperava que estivesse citando a constituição americana. Nesta semana eu li uns trechos e achei incrivelmente parecido com o que eu penso e escrevi lá atrás, nos idos de janeiro deste ano. Diz lá, na revista Veja:

• O presidente é um servo do povo e, portanto, deve aos cidadãos obediência litúrgica e hierárquica.

• O mandato presidencial é uma missão constitucional a que um dos cidadãos do país se submete muitas vezes a contragosto e em prejuízo de suas atividades privadas. Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos, disse: "Um homem honesto não sente prazer no exercício do poder sobre seus iguais".

Puxa, é uma delícia ver escrito em todas as letras que eu não estou sozinho com as minhas idéias. Eu já estava começando a me acostumar com o fato de ser um bicho estranho, com idéias doidas de que eu sou patrão dos engravatados de Brasília, eu pensava que era só eu, mas acabo de descobrir que mais gente pensa assim. Se somos poucos, podemos ser muitos, se formos muitos podemos mudar alguma coisa.

Quando eu escrevi sobre hierarquia, eu disse que os nossos empregados engravatados mandam em nós porque têm a polícia ao seu lado, mas acho que estou enganado. A polícia é outra organização que pensa que manda em alguma coisa, quando, de fato, é paga por nós, cidadãos pagadores de impostos, para nos proteger. Só que, além de não cumprir sua função, ela acha que pode mandar, porque tem poder, porque anda armada. O detalhe é que, ultimamente, a polícia está mais empenhada em sobreviver do que qualquer outra coisa.

Então os "eleitos" e nomeados podem mandar porque nós deixamos. Nós permitimos que eles mandem. Nós podemos mudar isso, mas só se formos muitos. Podemos votar só em quem prometa mudar isso, que tal?

Agora eu me lembrei da letra do George Harrison para os Beatles:

"I don't know how someone controlled you, they bought and sold you"

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Questão filosófica

"Ora - direis: ouvir estrelas! Certo perdeste o senso e eu vos direi, no entanto,
Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto"
Belchior (Divina comédia humana)

Tá, eu ainda não sei se nasceu primeiro a galinha ou o ovo, mas sempre me pergunto: se o ovo nasceu primeiro, quem chocou?!?

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Ora, crases...

"Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode esta língua?"
Caetano Veloso (Língua)

Uma profissão que se quer séria deveria ter maior cuidado com o que escreve, pois não? Eu leio sempre as notícias da ABO, no site deles, às vezes comento umas por aqui, mas hoje uma delas me chamou a atenção, não pelo conteúdo, tão dispensável quanto inútil, mas pela forma, pelo ataque gratuito à língua portuguesa que se cometeu:

DENTISTA CONVIDA MULHERES À PARTICIPAR DE MOVIMENTO EM CAMPO GRANDE

10 de Maio de 2006
Cirurgiã-dentista convida mulheres campo grandenses, para neste Dia das Mães, participarem de uma caminhada contra a "corrupção e a impunidade que assolam a nossa Pátria Mãe", diz a profissional. Este é uma movimento propositivo e apartidário. Data: 14 de Maio de 2006 Local: Praça do Rádio Clube Horário: 8h30 Informações: (67) 3325-####, 8111-#### e 8126-####

Movimento a favor da Pátria-Mãe-Brasil.

Assim, com aquela crase horrível, a notícia depõe contra toda a classe. O pessoal da ABO deveria cuidar mais da qualidade de seus textos...

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Sobre o dia das mães

"Mamãe quando eu crescer
Eu quero ser rebelde"
Belchior (Dândi)

Eu não aguento mais: foto de mulher grávida, foto de mulher amamentando, foto de mulher com criança pequena, com marmanjo com cara de tonto...

Arre, chega desse negócio de dia das mães, chega!

terça-feira, 9 de maio de 2006

Sobre os dentes do filho do Ronaldinho

"Tabelou, driblou dois zagueiros, deu um toque driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol"
Jorge Benjor (Fio Maravilha)


"Ele já tem sete dentinhos. Espero que não fiquem iguais aos meus"
Ronaldinho Gaúcho, jogador, sobre o seu filho João, de um ano e dois meses

Então papai Ronaldinho está preocupado com os dentes do filhote. Coisa mais natural do mundo, principalmente se tratando do moço que tem aqueles dentões bonitos, pero meio mal posicionados na boca, dando sempre a impressão de que se ele cair os dentes serão os primeiros a tocar o chão, antes mesmo das mãos.

Eu admiro o Ronaldinho demais. Exemplo de humildade, simplicidade, com aquela habilidade imensa com a bola e aquela simpatia com as pessoas, tendo vindo de família humilde, como quase todos os jogadores de futebol no Brasil. Mesmo assim ele continua simpático e acessível, sem estrelismos, sem xiliques ou dodóis. Exemplo pra todos. É por isso que eu achei muito legal ele se preocupar com os dentinhos do filho, coisa de pai cuidadoso, de quem se importa. E é por isso que eu gostaria de dizer pra ele que isso tem conserto. Se é pro guri sair parecido com ele, que saia, isso é uma dádiva. Dente a gente arruma, talento não. Se ele tiver o talento do pai, os dentes eu até arrumo de graça!

Quem acompanha este blog sabe o que eu penso sobre tratar de graça: é sempre mentira. Nesse caso, também, porque é claro que eu exigiria uma recompensa: poder continuar vendo aqueles shows de habilidade, aquela alegria de jogar, aqueles gols (ou goles?). Seria um tratamento regiamente pago.


segunda-feira, 8 de maio de 2006

Sobre a Bolívia e a boca do seu ministro

"Prá nosso espanto tanta mata ah já vão matar
Tal Mata Atlântica e a próxima Amazônia"
Xangai (Matança)

Eu sempre desconfiei que não foi o presidente da Bolívia, o 'indinho', que tinha barrado o barato da Petrobrás e seu gás. Eu desconfiava do ministro, porque o título do homem é 'ministro dos hidrocarbonetos'. Como eu, cientista e ciente das coisas, vivo confundindo hidrocarboneto com carboidrato (qual é a diferença mesmo... hidrogênio, carbono, oxigênio...), fui procurar uma foto da boca do tal ministro, que vi pela TV e me pareceu bom assunto pra esse blog, que anda falando tão pouco de boca, ultimamente.

E não é que eu achei? E achei em uma crônica, falando exatamente do quanto é estranha a tal boca, veja só:
Merece também figurar nesse hall de coisas impressionantes que andam chamando a atenção de todo mundo a boca indescritível do ministro boliviano dos Hidrocarbonetos, Andrés Soliz Rada. É um negócio de cair o queixo de qualquer um, né não?!


Pra você, que tem estômago forte, a foto (tire as crianças da sala):


sexta-feira, 5 de maio de 2006

O dente da capa

"Sorri de dente de fora, no leito,
Sulamericanamente."
Belchior (Meu cordial brasileiro)


Outro dia me perguntaram sobre a figura do dentinho que eu uso aqui no blog. Realmente eu me esqueci do crédito de quem criou o bicho, então voltei para me lembrar que isso é uma 'conta', ou seja, é feito de vidro por uma artista que vende seus trabalhos neste endereço.
Então está dado o crédito.

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Tese de Doutorado

"Preso nessa cela de osso, carne e sangue
Dando ordens a quem não sabe, obedecendo a quem tem"

Sá e Guarabira (Jesus numa moto)

Essa história circula pelos meios acadêmicos há muito tempo, só que hoje eu li de novo e achei que ainda está atual:

Certo dia o coelho saiu de sua toca com o notebook e pôs-se a trabalhar concentrado. Passou ali uma raposa intrigada com a atividade do coelho e perguntou:

O que você esta fazendo aí tão concentrado? Estou redigindo minha tese de doutorado, disse o coelho, sem tirar os olhos do trabalho. Qual o tema da sua tese? Uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais de animais como as raposas. Ridículo! Nós é que somos os predadores dos coelhos! Absolutamente! Venha comigo a minha toca que eu te mostro a minha prova experimental. O coelho e a raposa entram na toca. Em poucos instantes ouvem-se alguns ruídos, grunhidos e depois silêncio. Em seguida o coelho volta, sozinho, e retoma a sua tese.

Depois passa por ali um lobo que também acha curioso um coelho trabalhando naquela concentração. Coelhinho! O que o faz trabalhar tão arduamente? Minha tese de doutorado. Uma teoria que prova que nós, coelhos, somos grandes predadores naturais de vários animais inclusive dos lobos. Coelhinho! Isso é um despropósito. Nós, os lobos, é que somos os predadores naturais dos coelhos. Desculpe-me, mas se você quiser posso apresentar minha prova experimental. Ambos desaparecem toca adentro. Instantes depois, ouvem-se uivos desesperados, ruídos de mastigação e silêncio. Mais uma vez o coelho retorna sozinho e volta ao trabalho de redação da sua tese.

Dentro da toca do coelho vê-se enorme pilha de ossos ensangüentados e peles de diversas ex-raposas. Ao lado, outra pilha de ossos e restos mortais daquilo que um dia foram lobos. Ao centro um enorme leão, satisfeito, bem alimentado e sonolento, a
palitar os dentes.

MORAL DA HISTÓRIA: Não importa quão absurdo seja o tema de sua tese.

Não importa se você não tem o mínimo fundamento científico.

Não importa se os seus experimentos nunca chegarão a provar sua teoria.

Não importa nem mesmo se suas idéias vão contra o mais óbvio dos conceitos

O que importa é QUEM É O SEU ORIENTADOR!

terça-feira, 2 de maio de 2006

Sobre o primeiro de maio

"Esse povo muito longe, sem trabalho, vem prá cá
Vai na estrada enluarada... tanta gente a retirar"
Elomar (Retirada)

Não sei se estou errado, mas no dia do trabalho a gente não devia... trabalhar?!?

sábado, 29 de abril de 2006

Sobre o imposto de renda

"Eu arranjei o meu dinheiro, trabalhando o ano inteiro;
Minha maloca, a mais linda deste mundo, ofereço aos vagabundos
Que não têm onde dormir"
Adoniran Barbosa (Abrigo de vagabundos)

Recebi por e-mail de um amigo e me identifiquei imediatamente:

Não percam o prazo do IRPF 2006.
NÃO ESQUEÇAM TODOS OS DEPENDENTES!!!!!!

LISTA DE DEPENDENTES DO IR - Você já atualizou a sua lista de dependentes do IR? Não? Então pode copiar da minha.

DECLARAÇÃO ANUAL DE RENDIMENTOS - PESSOA FÍSICA
RELAÇÃO OFICIAL DOS MEUS DEPENDENTES:
  1. Governo Federal - IR, CPMF etc.;
  2. Governo Estadual - IPVA, ICMS etc.;
  3. Governo Municipal - IPTU, TRSD. ISS QN etc.;
  4. INSS - Contribuição previdenciária;
  5. Conselho Regional de Odontologia - Contribuição anual;
  6. Sindicato dos "odontologistas" (?)- Contribuição anual;
  7. DMAE/COMLURB - Contas de água e esgoto (consumo mínimo) e taxa de coleta de lixo;
  8. CEEE/CEG - Contas de luz e gás (consumo mínimo);
  9. Telefonica/BrasilTelecom/TIM/CLARO/VIVO celular - Assinatura mensal;
  10. Plano de Saúde - Mensalidade;
  11. Detran - Licenciamento anual de veículo, transferência e renovação de carteira de habilitação;
  12. Contran - Taxa de inspeção veicular;
  13. IRB - Seguro automotor obrigatório;
  14. Concessionárias de estradas de rodagem - Pedágios ;
  15. CET/DSV/ESTAR - Talões de estacionamento;
  16. Terminais aeroviários e rodoviários - Taxa de uso dos sanitários e estacionamento;
  17. Instituições financeiras - Taxas de administração e manutenção de contas correntes, renovação anual de cartões de crédito, requisição de talões de cheque, CPMF, etc.;
  18. Tomadores de conta de veículos, guardadores de lugar em filas, cambistas diversos, flanelinhas e vendedores de semáforos - Caixinha, cafezinho etc.;
  19. Carteiro, lixeiro, varredor de rua, leitores de relógios e entregadores de contas - Páscoa, Natal, Ano Novo etc.

E 567 deputados e 81 senadores, com as respectivas CORJAS. É mole ? isso aí deveria chamar...

LISTA DOS VAGABUNDOS QUE SOU OBRIGADO A SUSTENTAR

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Sobre a mentira e a cara de pau

"Nada ficou no lugar / Eu quero entregar suas mentiras
Eu vou invadir sua aula / Queria falar sua língua"
Adriana Calcanhoto (Mentiras)

De novo os dirigentes do Conselho Federal de Odontologia metem os pés pelas patas e abrem as pernas, alegremente, para os publicitários:

A se confirmar aquilo que foi votado nos dias 6 e 7 de abril, em Recife, pelo plenário do Conselho Federal de Odontologia e os presidentes dos 27 Regionais, em breve o capítulo relativo à propaganda no Código de Ética terá uma nova redação. Ou “uma suave liberalização”, como define o secretário-geral do CFO, Marcos Santana, um dos principais coordenadores da reunião que atendeu pelo pomposo nome de “Fórum Nacional de Discussão do Capítulo de Propaganda e Publicidade do Código de Ética Odontológica”.
Ora, ora, então quer dizer que, a título de "suave liberalização" os 'eleitos' querem que os publicitários ganhem mais dinheiro nas nossas costas, capisci? Ou será que eu estou errado e eles só querem mesmo é ferrar com quem estudou e se dedica a fazer uma odontologia de excelência, privilegiando no processo o dentista de jaleco sujo, que não está nem aí? Senão, vejamos outro parágrafo da notícia:

Com a nova redação o profissional sem diploma de especialidade poderá anunciar uma eventual atividade circunscrita a uma especialização, desde que, obrigatoriamente, informe ao lado sua condição de “clínico geral”. Como se vê, a mudança parece sutil, mas não é.

Ah, agora eu entendi: qualquer um pode anunciar que é ortodontista, mesmo sem o ser de fato, o que era uma antiga reivindicação de um grupelho de picaretas das mais variadas estirpes, que fazem cursinhos de fim-de-semana e adoram propagandear que cobram muuuuito menos pelo tratamento do que o infeliz que fez especialização. Bom. Gostei. Mas o melhor está por vir, a explicação do presidente da Comissão de Sistematização das Propostas dos CROs, Marcos Santana:

”Foi uma decisão sábia, pois o cirurgião-dentista informa a verdade sem induzir o consumidor ao engano”

Então está bom: o 'consumidor' vê o anúncio do 'doutor', dizendo em letras garrafais: ORTODONTISTA, e, ao pé da página, para ler com microscópio, a informação:

Este 'doutor' não é um doutor de verdade, porque não fez doutorado, nem é
ortodontista de verdade, porque não fez especialização em ortodontia, ele só
escreveu isso aí em cima que é pra você achar que ele é doutor e ortodontista,
ir lá no consultório dele, fazer o tratamento e só depois descobrir que caiu em
uma roubada.

Ah, eu quero tanto ver isso acontecer... estou até babando de vontade de ver esses anúncios por aí, tenho absoluta certeza de que eu, que estudei a minha vida inteira, sou mestre e doutor, pago a extorsiva anuidade do CRO todos os anos, serei muito favorecido por essas decisões. O engraçado (se eu falar que é triste me acusam de ser ranzinza) é que o conselho, ao invés de investir na melhoria técnica do CD, faz exatamente o contrário: privilegia aquele que não estudou, que se mete a fazer o que não sabe fazer direito, sem embasamento teórico, empiricamente, o dentista de jaleco sujo. E no fim, para total escárnio de quem estudou, a notícia ainda traz a frase: "Clínicos gerais contemplados, especialistas respeitados", com a argumentação do Sr. Marcos Santana:

“O mais importante é que foi feita uma liberalização sem perder de vista a legalidade, a honestidade e a veracidade, que fundamentam a ética profissional”

Marcos, me dá licença, mas eu vou escrever com todas as letras, em negrito: você mente! Isso que você disse é uma mentira deslavada. Você é um dos responsáveis pelo aviltamento da odontologia, você é um dos vendilhões do templo, cede ao lobby dos piores elementos da profissão, aqueles que não estudaram o quanto deveriam e querem ganhar mais do que os que estudaram, na marra. Você colaborou com isso. Se o seu filho for dentista, aconselhe-o: "Filho, não estude, faça propaganda, que a lei o papai garante".

Durma tranquilo, Marcos. Vire fazendeiro, porque com a odontologia você já ferrou.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Sobre meninos e lobos - reloaded

"Ela foi criada na roda da malandragem, hoje vive com visagem
Sei que com esta nega não vou levar a mínima vantagem."
Moreira da Silva (Risoleta)

Li, no excelente blog da Alessandra Felix um texto que tem absolutamente tudo a ver com as minhas teorias (prólogo e epílogo). Para ser justo, linko o texto aqui, quem quiser dar uma olhada e comparar vai ver que, na essência, nós dois dizemos a mesma coisa, só que a Alessandra escreve muitíssimo melhor que eu, conseguiu, em um texto claro e enxuto, dizer tudo o que eu tentei nessas duas catástrofes autocomiserativas. Sorry, cada um só consegue chegar até o seu limite, mesmo forçando um pouco a barra, como eu costumo fazer.

Sobre as letras das músicas

"Este post não vai ter o costumeiro preâmbulo musical
Porque, claro, vai falar de música o tempo todo"
Mr. Teeth

Ou: porque eu acho o Chico o máximo!

Eu, que sou músico diletante (putz, eu adoro quando consigo colocar uma palavra assim, chique, no texto), presto muita atenção nas letras das músicas. E acho que letra boa é aquela que combina com a melodia e que consegue dizer alguma coisa. Só por esse último critério, Djavan está limado. As letras dele combinam, mas não dizem nada, ninguém entende nada, parece até que ele não escreve em português. Por outro lado, letras absolutamente simplistas também são irritantes, veja só:

"É isso aííííííííí... Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa, quase sempre."

Tá, tem muita gente que gosta dessa música que a Ana Carolina canta (não sei quem é o autor, nem me dei ao trabalho de procurar), mas leia a letra atentamente. Não diz nada. Eu li o resto e diz tanto quanto essa parte. Fora o aíííííí espichado, no final da frase, que é recurso de música sertaneja. Pior, não pode haver. Mas tem mais, tem muito mais. Eu sei, música ruim tem em todo lugar, mas está ficando insuportável:

"Não vou mudar, esse caso não tem solução
Sou fera ferida, no corpo e na alma e no coração."

Essa é até melhorzinha, mas o que torna uma letra realmente boa é o uso das palavras de forma criativa. Letra de música não é poesia, um dos poucos poetas que se deu bem fazendo letra foi o Vinícius, mas isso já é covardia. Dizer que é "fera ferida" e etc é puro lugar-comum. Compare com o que o Chico fez com essas palavras (de novo, lembre da música, se não não tem graça):

"Quem que te mandou tomar conhaque
Com o tíquete que te dei pro leite"

Uau! Poucas e curtas palavras formando uma verdadeira batucada vocal. Uma frase banal, que passaria despercebida em qualquer poema, poderia até ser taxada de boba, na música vira uma coisa completamente inusitada, surpreendente. Na mesma linha, tem do Geraldo Pereira, sambista das antigas, uma música chamada "Escurinho", quem conhece vai se lembrar da estrofe final:

"Já foi no morro do Pinto
Acabar com o samba"

As palavras marcam a música como se fossem percussão. É pura inspiração. Mas o meu verso preferido é mesmo do Chico, na música "Tatuagem", que eu já usei mais de uma vez aqui:

"Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo, em carne viva"

Pronto. Quem mais, neste mundo, teria coragem de combinar assim essas palavras para falar de amor?

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Sobre e mudança do discurso

"Provei pra você que eu não sou mais disso
Não perco mais o meu compromisso"
Zeca Pagodinho (Não sou mais disso)

Finalmente uma voz sensata no governo (Hai gobierno? Soy contra!). Hoje de manhã me deparo com uma "ameaça" do ministro Guido Mantega* de cortar gastos para garantir superavit. Aleluia!!! Até que enfim alguém que não tem que trabalhar como burro de carga para irrigar as contas milionárias do fisco conseguiu enxergar um pouco.

Todas as vezes em que o governo está deficitário ele se empenha em aumentar a arrecadação, leia-se extorquir o povo aumentando impostos. Quando não aumenta ele dá um jeito de cobrar dos poucos pobres-coitados que conseguiam esconder os caraminguás dos ladrões. Agora o ministro diz a primeira coisa sensata em muitos anos de economia e "ameaça" cortar gastos, que beleza! Que se cumpra, senhor ministro, sua ameaça. Que o nosso fisco se esqueça um pouco do pobre trabalhador honesto e olhe um pouco para a gastança imoral de vereadores, deputados, senadores e outros que, felizes na esbórnia do dinheirinho nosso de cada dia, acham que aquelas contas são infinitas, pois quando o poço seca eles sempre podem espremer o pano mais um pouco para coletar as últimas gotas do nosso sangue.

* Eu, desde que ouvi pela primeira vez o nome do nosso novo ministro, estou imaginando como ele se chamava antes de adotar essa forma. Todos falam 'Guido Mântega', como se realmente tivesse a tônica na primeira sílaba do sobrenome, mas eu desconfio fortemente que o nome do homem é Margarido Matega, com o sobrenome paroxítono, como mandam as regras do bom português. Será?

terça-feira, 18 de abril de 2006

O que é de graça e o que você paga

Minha profissão é suja e vulgar, quero um pagamento para me deitar
Junto com você estrangular meu riso, dê-me seu amor que dele não preciso
Zé Ramalho (Garoto de aluguel)

O que é que existe de graça neste mundo? Um amigo diz que, de graça, até tiro o povo anda levando. E é verdade. Hoje li uma notícia sobre isso que me deixou encabulado, veja só:

Governo pode impedir cobrança por ponto extra de TV a
cabo
Segunda, 17 de Abril de 2006, 13h16

A Câmara analisa um Projeto de Lei, do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que
impede que as empresas de TV a cabo cobrem dos assinantes os pontos adicionais de recepção nas residências. Segundo o projeto, as empresas serão obrigadas a instalar os pontos extras sempre que o assinante solicitar. A proposta altera a Lei 8977/95.
As empresas alegam que a cobrança pela instalação e uso dos pontos adicionais têm como objetivo assegurar a manutenção da rede da TV por assinatura.


Pois é, se os nossos queridos políticos colocarem as suas mãos impolutas em mais essa questão, quem sai perdendo somos nós, pra variar. Pense: as operadoras não vão ficar no prejuízo, isso é certo. Elas vão cobrar os pontos adicionais de algum jeito, ou seja, subindo o preço para todos os assinantes, para compensar o gasto que terão com os que receberão os pontos extras sem pagar diretamente. Quem perde é o cara solteiro, que mora sozinho, o casal sem filhos, enfim, aqueles que não tem pontos adicionais, porque todo mundo vai pagar pelos pontos dos que tiverem.

É como no caso do banheiro. Uma vez eu peguei um taxi em Sampa e o motorista estava revoltado porque na rodoviária os banheiros são pagos. Ele foi no aeroporto e não cobraram para ele usar o banheiro, que coisa boa! Aí eu argumentei que ele pagou muito mais caro pelo banheiro do aeroporto do que pelo da rodoviária, porque o do aeroporto ele paga todos os dias, usando ou não, e o da rodoviária ele só paga quando usa. Ele não entendeu, mas eu fiquei feliz por ter conseguido expressar meu argumento, coisa que nem sempre sou capaz de fazer.

Se o governo, de repente, me obriga a tratar de graça no meu consultório, todas as mulheres que entraram aqui, é claro que eu vou cobrar isso dos homens. Eu tenho que sobreviver, se continuar com os mesmos preços eu vou falir rapidinho, ou seja, para cada dama que entrar no meu consultório, deve haver um cavalheiro pagando o tratamento em dobro. Dinheiro não dá em árvore, parece que só os políticos não sabem disso. Claro, o deles também não dá em árvore. O deles aparece, misteriosamente, em uma conta do Banco do Brasil...

sábado, 15 de abril de 2006

Feliz Páscoa (post renegado)

Eu tinha colocado aqui a figura dos dois coelhinhos de chocolate. Depois eu vi que essa figura estava em praticamente TODOS os blogs que eu leio, então resolvi tirar. Não gosto de ficar igualzão, por mais que eu admire os caras, então eu tirei e figura.

Fica só o desejo: feliz páscoa, shalom pessach!

terça-feira, 11 de abril de 2006

Tatoo

"Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo, em carne viva"
Chico Buarque (Tatuagem)

Quando eu fiz uma lista das coisas doidas que eu já fiz na vida, citei minhas tatuagens. Desde aquela época me pediram pra postar 'fotinhas' delas, então aí vão, sem maiores explicações: a fênix do ombro direito e o cavalo marinho da perna esquerda.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Odontologia - grana x arte

"Divinha o que primeiro vem: amor ou vem dindim
Dindinha, dê dinheiro, carinho e calor pra mim"
Ceumar (Dindinha)

A Odontologia vive hoje um dilema triste: se você for um CD dos bons, daqueles que capricha em tudo o que faz, se encanta com uma restauração bem feita, contornos perfeitos, anatomia que pode enganar até deus, então você está em um caminho perigoso. Se você escolhe sempre os melhores materiais e equipamentos - sem pensar muito no preço - para proporcionar ao seu cliente o melhor trabalho possível, se você arruma a recepção com música, tv, revistas atualizadas para que o seu cliente não fique aborrecido caso você atrase alguns minutos o atendimento, você está anacrônico. Se você se esmera em não atrasar o horario de atendimento ao cliente por puro respeito a ele, pois sabe que hoje os compromissos são tantos que ninguém pode se dar ao luxo de ficar meia hora no dentista além do tempo previsto...

Tudo isso prejudica seus lucros. Hoje ganha dinheiro com odontologia quem a vê não como ciência e arte, mas como puro e simples comércio. O marketing nos ensina a maximizar lucros minimizando custos. Se você vai arrumar a recepção, faça-o não pelo seu cliente, mas por você. Quando vai comprar um novo material ou equipamento, esqueça-se de fatores idiotas como a qualidade ou o conforto, pense no lucro, se esse material ou equipamento vai aumentar seus ganhos, se o investimento vale a pena.

O problema é que nesse processo, vai-se pro ralo o respeito ao seu cliente. Você dá a impressão que está mimando o coitado, mas está pura e simplesmente arrumando um jeito de arrancar mais dinheiro dele. Triste isso. Envolve mentiras, dissimulações, falsidade. O marketing é isso, mentira, enganação. Dê a impressão que é um bom profissional, faça seu cliente se sentir único, amado, idolatrado. Quando ele sair, conte as notas que ele deixou no caixa e esqueça-se dele até a próxima consulta, porque vem aí outro cliente único, amado, idolatrado e com o dinheiro que você quer.

Eu ainda acredito que odontologia é ciência e arte. Infelizmente eu acabo me prejudicando nos lucros, mas eu durmo tranquilo à noite (e de dia também, se tiver tempo). Eu tenho a consciência tranquila porque eu sei que tudo o que eu faço é visando, primeiro, o meu cliente. Eu respeito profundamente o ser humano que me deu a honra de me escolher para tratar da sua saúde. É claro que eu adoro ganhar dinheiro, mas este nunca foi e nem nunca será meu objetivo principal, eu ganho dinheiro porque eu sou um bom dentista, e não o contrário.

E você, doutor?

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Jornal do CFO - auto bajulação

"Eu me amo, eu me amo
Não posso mais viver sem mim"
Roger - Ultraje a Rigor (Eu me amo)

Acabo de receber o jornal do CFO, com uma matéria de capa que me deixou preocupado: o órgão afirma que fez uma pesquisa de opinião entre os CD´s e obteve 96% de aprovação. Assusta-me por mais de um motivo.

Primeiro que aprovação de 96% é coisa digna das mais cabeludas ditaduras, me lembra as eleições de Cuba, por exemplo. Não há diretoria no mundo que obtenha tamanha aprovação em uma pesquisa séria. Eu não li a matéria toda, tenho mais o que fazer, mas a metodologia da consulta não pode estar correta, não é possível.

Eu não votei nesse presidente do CFO. Aliás, eu NUNCA votei em presidente do CFO, e eleição é, na melhor tradição ditatorial-militarista do nosso país, indireta. Depois de eleição indireta, recadastramento obrigatório (arre, só de escrever essa palavra eu já fico com raiva) e campanhas inúteis no congresso - com o nosso dinheiro, claro - os caras gastam mais uns trocados para fazer um jornal dizendo que a administração deles tem 96% de aprovação. Eu já vi esse filme e não gostei.

É sempre a mesma história: nós somos obrigados a pagar, eles gastam como bem entendem e publicam o que bem querem. Quem fiscaliza? Que utilidade tem o jornal do CFO, enviado a todos os CD´s do Brasil com auto-propaganda do presidente, dos conselheiros e de alguns políticos amigos? Pra mim, nenhuma. Eles estão fazendo propaganda pra eles, com o meu dinheiro.

Em tempo: entre as "grandes" realizações da atual diretoria, está a criação de comissões para discutir o uso de 'terapias complementares' na odontologia. Por trás desse nome pomposo estão as bruxarias de costume: fitoterapia, hipnose, acupuntura, homeopatia, florais... eu sugeriria que se incluíssem o xamanismo, a cabala, a benzedura e o que mais a fértil imaginação dos nossos 'eleitos' diretores puder inventar. Já que é pra gastar nosso dinheiro à toa, vamos logo chutar o pau da barraca!

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Manias

"Mania é coisa que a gente tem e não sabe porque
Entre as manias que eu tenho, uma é gostar de você"
Dolores Duran (Manias)

Agora a brincadeira é fazer lista de manias. O Biajoni fez a dele, o Alex Castro também. Esse último, inclusive, argumenta que mania é coisa ruim que a gente faz, se não ia ter nego por aí dizendo que tem mania de escovar os dentes (quem dera que todos os meus clientes tivessem essa mania), mas eu discordo: tudo bem que escovar dente não é mania, eu classifico isso como hábito de higiene, assim como tomar banho e limpar o bumbum. Mania é quando passa do normal, veja só:
  • Eu tenho mania de lavar as mãos. Talvez pela minha profissão, eu vivo com a sensação de ter as mãos meio meladas, então eu lavo com frequência. No consultório e na clínica ninguém acha isso estranho, mas em casa eu vou no banheiro lavar as mãos na hora da propaganda do CSI porque minhas mãos estão grudando no controle remoto da TV. Minhas filhas acham isso o máximo!
  • Fechar portas. Eu detesto portas (e gavetas, consequentemente) abertas. Portas da casa, dos armários, de tudo. Eu não consigo escovar os dentes sem estar trancado no banheiro. Portas fechadas garantem minha privacidade. Eu já comentei aqui que sou meio eremita, e estou piorando.
  • Dobrar papéis usados. Quando eu vou jogar fora qualquer papel, eu não amasso, eu dobro direitinho, ponta com ponta, borda com borda. Faço isso com as propagandas que me mandam pelo correio, com papéis velhos e até com papel higiênico. O guardanapo que eu usei eu dobro e depois dou uma torcida, ele fica parecendo com uma gravata borboleta.

Vocês me acharam muito biruta? No limite de ser obcessivo/compulsivo? Bom, nenhuma dessas manias me torna incompatível com a vida em sociedade, eu até que sou uma pessoa equilibrada, na medida do possível. Manias todo mundo tem.

terça-feira, 4 de abril de 2006

BitTorrent

"Meus amigos dizem que essa coisa vicia
Andaram até jurando que era anorexia"
Rita Lee (On the rocks)

Novo brinquedo: bittorrent. Há tempos eu namorava uns discos que não existem mais. Um deles era o "Live in Japan", álbum duplo do George Harrison (com o Eric Clapton), em uma das melhores fases do cara, quando ele ainda não estava totalmente atarantado com os indianos:



Pois esse disco não existe, simplesmente não existe! É coisa de colecionador, só tem vinil, nada de CD, e quando eu achei (no e-Bay) custava uma fortuna. Eu, menino adepto de novas tecnologias, nem tenho toca-discos pra rodar vinil, que dirá dólares pra comprar ítem de colecionador... e aí eu descobri o bittorrent. Lá tem discos inteiros, com som excelente! Baixei o danado e estou ouvindo, encantado. É, eu gosto de Beatles, acho que foram gênios, mudaram a música do mundo todo, e o George Harrison foi o "patinho-feio", ofuscado pela genialidade fulgurante de Lennon & McCartney, mas isso é outra história.

Deixa eu ouvir minha música em paz.

Em tempo: eu não costumo baixar música da internet, faço isso quando não tenho outra alternativa, como nesse caso ou quando eu quero aprender a melodia de uma música cujo disco eu não tenho, pra tocar no violão e não encontrei a partitura.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Prova de Ortodontia

"Pra não ser enganado
Trago o peito fechado
Quero apenas viver em paz"
Paulinho da Viola (Caso encerrado)

Por que, diabos, a gente faz isso com os nossos aluninhos? Pra mim eles são todos crianças, tentando aprender uma profissão que terão que exercer como adultos, que ainda estão longe de ser. Mas tem coisas que as crianças fazem que são dignas de nota, então, mesmo sabendo que eu serei cruel com a menina, vou escrever aqui. Começo lembrando que os meus aluninhos estão na faculdade de odontologia e têm, em média 22 anos:

A pergunta na prova de hoje era sobre moldagem em ortodontia. Moldagem é importante, ortodontistas usam modelos como referência em seu trabalho, então tem um jeito certo de moldar e fazer o modelo que deve ser seguido. O protocolo de moldagem tem, lá pelas tantas, a especificação de duas posições possíveis para paciente e profissional:
  1. Paciente sentado, profissional de pé - é a posição preferida, porque o material não escorre na garganta do paciente, o que pode causar náuseas com resultados catastróficos se o paciente for criança e não estiver em jejum
  2. Paciente deitado e profissional sentado - é uma posição muito utilizada para se moldar adultos, até porque para o profissional é mais confortável, não exigindo grandes mudanças de posição da cadeira.

Muito bem, a moça ao fazer a prova hoje, inventou uma terceira posição: paciente deitado e profissional deitado. O surrealismo da cena, imaginada pelos professores causou um acesso de riso poucas vezes visto no ambiente vetusto da sala de provas. O pior é que a aluna queria saber do que nós ríamos tanto e nós não podíamos falar, sob pena de entregar a questão para todos os outros... e nem conseguiríamos, sem fôlego!

sexta-feira, 31 de março de 2006

$$$$ - quanto?!?

"Comprei uma cadeira lá na praça da bandeira
Ali vou me defendendo
Pegando firme dá pra tirar mais 1000 por mês"
Adoniran Barbosa (Vide verso meu endereço)

Deu no New-ABO-Times:

Um grupo de representantes de mais de 70 associações, entre elas a Associação Brasileira de Odontologia (ABO), representada pelo seu vice-presidente, Luiz Roberto Craveiro Campos, foi ao senado reclamar da MP 275, que reajusta a tabela de imposto. Veja o que se diz na notícia, para justificar tamanha empresa:

*grifos meus

A MP 275 reajusta as faixas de faturamento para enquadramento no Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte (Simples), de R$ 120 mil para R$ 240 mil (microempresas) e de R$ 1,2 milhão para R$ 2,4 milhão (pequenas empresas).
Esse, no entanto, não é o problema. Acontece que, em contrapartida, o governo federal elevou de 8,6% para 12,6% as alíquotas para empresas que tiveram ganho superior a R$ 1,2 milhão por ano. Ou seja, o Fisco finge que corrige a tabela do Simples e ao mesmo tempo eleva a tributação.


Peraí, deixa eu ver se entendi direito: tem dentista por aí ganhando mais de R$ 1,2 milhão por ano?!? Ôpa, eu também quero!!! Eu não sei o que eles fazem pra ganhar tanto dinheiro, não pode ser só com Odontologia, ou então eu estou no caminho errado. Um conhecido me disse, uma vez, que eu estudo e trabalho demais, não tenho tempo pra ganhar dinheiro. Deve ser verdade, porque, fazendo as contas, grosseiramente, dá $ 100.000,00 por mês!

Deputados e deputadas: se um dentista ganha cem mil bagarotes por mês no consultório eu sou mico de circo. Me passem a banana, por favor.

quarta-feira, 29 de março de 2006

Uuuuuuutil!

"Inútil
A gente somos inútil"
Ultraje a Rigor (Inútil)*
*Eu sei que essa música não é do "Ultraje a Rigor", mas nem o São Google conseguiu descobrir o nome do autor.

Uma empresa japonesa lança no mercado um guarda-chuva que avisa se vai chover. Agora eu pergunto: se você está na rua, com um guarda-chuva na mão, qual a utilidade dessa informação?!?

terça-feira, 28 de março de 2006

Sobre meninos e lobos - epílogo

"Só posso dizer: chapeuzinho agora traz
Um lobo na coleira que não janta nunca mais"
Winson Simonal (Lobo bobo)

Não há como domar um lobo. O maior sonho da mulher é domar o lobo do homem, mas não há como. Pode bater, pode agradar, fazer de tudo, ele até parece manso, mas se sair, volta a ser selvagem. A maioria das mulheres convive em relativo equilíbrio com isso, procura se manter longe quando o homem solta o bicho, acha até engraçado e só se aproxima quando ele volta para a jaula e é seguro chegar perto, mas tem algumas que fazem questão de não aceitar.

Algumas, na tentativa de domar, matam o lobo. O resultado é que o homem se torna imprestável como homem. O que torna o homem um homem é exatamente o lobo. Sem ele, pode-se ganhar dinheiro, pode-se ter carinho, filhos, casa, carro, posição, aparência, mas não se tem um homem. Homens dependem dos lobos, e vice-e-versa. Ao contrário do lobo solitário, que pode se tornar um não-lobo, o lobo morto não pode ser recuperado. E a mulher, depois de matar o bicho, vai embora reclamando que o homem não é mais o mesmo.

quinta-feira, 23 de março de 2006

Sobre meninos e lobos - prólogo

"Era uma vez um lobo mau
Que resolveu jantar alguém"
Wilson Simonal (Lobo bobo)

Todo homem tem um lobo dentro de si. A maior parte dos homens consegue manter seu lobo na jaula a maior parte do tempo, mas lobos são complicados, selvagens, precisam de um passeio, de de vez em quando. Normalmente alguns minutos fora da jaula, durante um jogo de futebol, uma pescaria ou uma simples reunião com amigos é suficiente para os lobos ficarem satisfeitos e voltarem plácidos às suas jaulas, mas isso não significa que eles ficarão quietos até a próxima semana.

Às vezes o lobo escapa. Pode ser por um pequeno descuido, por um motivo aparentemente pífio, alguém se esqueceu de dar a segunda volta na chave e, depois de muito provocado, um pequeno esbarrão na jaula faz a porta se abrir e o bicho sai. E sai fazendo estragos, grita palavrões, quebra os móveis, às vezes até morde alguém que está perto. Depois volta pra jaula de novo, deixando seu dono em uma situação complicada: explicar como aquele bicho selvagem apareceu no meio da festa e fez aquela confusão toda.

Lobos são incontroláveis. Você pode ver o bicho dentro da jaula, dormindo, e achar que é só um cachorro crescido, mas ali está algo com um poder explosivo que poucos compreendem. Acalmar lobos e satisfazer sua necessidade de selvageria é coisa que demanda muita energia, uma boa dose de coragem e tempo. Lobos precisam sair, quebrar coisas, bater, morder, mijar nas árvores e uivar com outros lobos. Lobos solitários deixam, muitas vezes de ser lobos para se tornar um híbrido de avestruz e carneiro. Um bicho que não rosna, não morde e não uiva, e ao menor sinal de perigo enfia a cabeça em um buraco no chão.

segunda-feira, 20 de março de 2006

O CD do Galvão

"Foi nos bailes da vida ou num bar, em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão"
Milton Nascimento (Nos bailes da vida)

Sexta-feira eu quase ganhei um CD do Galvão, pessoa nota 10 e músico melhor ainda. Ele ia me dar o CD, mas como eu também sou músico (nem chego aos pés do Galvão, claro) eu perguntei quanto era. Ele, muito envergonhado, disse o preço e eu paguei. Foi barato, que o disco é ótimo!

São 14 composições dele, edição caprichadíssima (encarte com obras de Portinari!) e um som de primeira. Vou me permitir comentar as minhas preferidas:
  • Outra Cena: Lembra os melhores momendos do Edu Lobo, que com certeza foi a inspiração desta música. Letra delicada, de saudade e melodia mansa, daquelas que a gente não se cansa de ouvir.
  • Aboio: O Galvão chamou isso de xote-jazz. Na hora que eu li, não entendi, tive que ouvir a batida sincopada, com o triângulo marcando o tempo quebrado. Fantástico. Desculpe, Gavão, nem ouvi a letra, tanto que gostei da música.
  • 500.com.br: Aqui a letra é que é a estrela, a brincadeira com as palavras e com o sentido do subtítulo, site do meu país, que na hora de cantar vira sai-te do meu país.
  • Valsa Rendeira: Me trouxe à memória as harmonias sofisticadas das valsas do Tom Jobim, como Luiza e Beatriz. Um luxo!
  • Campo Grande: É um samba mais batidinho do que a levada bossa-nova do restante do disco, por isso é uma delícia de ouvir. Eu já conhecia a música, homenagem à cidade que ouve 'sertanojo' e, quando muito, polca e guarânia. E a ironia da letra, no final, é impagável.

Não vou falar de todas, que o post ia ficar muito grande e vai ficar parecendo que eu estou puxando o saco do cara, podem achar que é viadagem minha... mas o fato é que o disco é ótimo, estou ouvindo direto. Recomendo. Prometo, depois, colocar um link aqui para o site dele.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Carta de um dentista revoltado

Esta me foi mandada hoje, por um amigo que não é dentista mas conhece bem a realidade que nós enfrentamos no dia-a-dia:
Obs.: eu tomei a liberdade de trocar alguns termos com os quais não concordava, como por exemplo, troquei os 'vc' por você, só para não deixar o texto com cara de que foi escrito em 'miguxês'.

"Larguei a maldita odontologia após assistir a reportagem da Vigilância Sanitária no Gugu, eis a explicação: Um cara vendendo cachorro-quente com a salsicha estragada, maionese fora da geladeira e no sol no banco da frente do carro, com purê de batata marrom-esverdeado, fatura LÍQUIDO (ISSO MESMO, LÍQUIDO) R$ 200,00 por dia!!!!!!!!! Isso dá R$ 6.000,00 (seis mil) por mês!!!!!!!!!!! Sendo assim estou montado uma barraquinha de cachorro-quente. Isso porque:

1) Pra que tanta responsabilidade se coisas muito mais simples dão muito mais dinheiro e muito menos problemas?

2) O Cachorro-quente podre por 2,50 é uma pechincha... mas a restauração por 25,00... Porra dotô, cê tá maluco?! Tudo isso pa pô uma massinha?! Tá enchendo o rabo de dinheiro, hein?! E depois de ouvir tudo isso você ainda tem de ser simpático, encher uma maldita luva e fazer de bexiga pro filho dele cheio de ramela, que pula feito um macaco no sofá da sua sala de espera, brincar e ainda dizer "Volte sempre, foi um prazer" quando na verdade a sua vontade é chutar aquele moleque e cravar um Le Cron no olho do pai dele.

3) Pra que se preocupar com parestesias, seios maxilares, espaço biológico, conicidades do preparo, trepanações, etc; se vendendo Roti-doguis a única iatrogenia que você pode causar ao paciente é uma caganeira (sic) temporária que ele nunca vai saber se foi o Roti-dogui do seu carrinho ou o pastér di parmito com guarapa do dia anterior.

4) Biossegurança... por incrível que pareça a mesma mão que pega o dinheiro faz o sanduba! Não é necessário gastar R$ 3.000,00 numa autoclave para esterelizar o pegador de salsichas.

5) A maionese, o purê de batatas e as salsichas são muito mais baratos que alginato, siliconas e resinas.

6) Não tem que pagar Sindicato dos Dogueiros, nem associação Paulista dos Roti Dogueiros, nem taxas sobre a maionese, a mostarda e a batata palha.

7) Se a ANVISA aparecer, a única coisa que você vai ter de fazer é lavar o seu carrinho com cloro e comprar salsichas, batatas e maioneses dentro do prazo de validade. Não vai ter de gastar uma fortuna com proteções para Raio-x, caixas descarpack, etc., etc., etc...

8) Vendendo Roti-doguis você estará preenchendo as cavidades abertas e as bolsas periodontais do seus clientes com a massa do sanduba na hora do almoço, já que ele tem de comer rapidinho que tem consulta marcada no dentista para as 13:30h e não vai dar tempo nem de escovar o dente... mas foda-se, o ladrão filho da puta cobra 25,00 pra por uma massinha..."

Hehehe, e depois ainda me chamam de ranzinza. O pior é que isso acontece com muito mais frequência do que nós gostaríamos de admitir. Eu comentava ainda hoje sobre a desproporção da responsabilidade de juízes de direito e médicos, com outro amigo: se um juiz erra, por mais que tenha detonado com a vida da infeliz vítima de seu erro, outro juiz vem e resolve, colocando 'panos quentes'. Se um médico erra, valha-me deus! E os advogados ainda não descobriram os dentistas (esconjuro!)

segunda-feira, 13 de março de 2006

Miriam Mourão

"Só o aventureiro é capaz de partir e não voltar mais
Se realizar, depois sonhar, então morrer"
Almir Sater (Missões naturais)

O câncer levou uma querida amiga, Miriam, que era uma luz em um mundo de trevas. Uma pessoa que sonhava mudar o mundo, mas não para ela, e sim para os que tinham menos, para os que sofriam, para os que sonhavam.

Alma extrema, caridosa, guerreira. Deixa saudades em muita, mas muita gente mesmo.

Vai, Miriam, vai tentar mudar o céu!

sábado, 11 de março de 2006

Inseminação artificial

"Te faço um filho, te dou outra vida
Pra te mostrar quem sou"
Cazuza (Faz parte do meu show)

Eu, Birico e Giláo (Giláo é o meu pai) temos uma criação de rãs incipiente. Tava difícil fazer os bichinhos se reproduzirem até que o Birico e o Giláo resolveram pedir ajuda a uns entendidos lá de Botucatu. Um deles veio e ensinou como é que se faz. Pois hoje nós fomos lá, fazer carinho nas rãs para ver se conseguimos uns filhotes. E não é que deu certo?

O Giláo injetou hormônios nos bichos anteontem, ontem e hoje. Isso para as moças, que os rapazes só tomam uma dose, uma hora antes do vamos-ver. Quando as moças estavam prontas, o Birico enfiou uma pipeta na cloaca de um dos rapazes (eram seis, ao todo: Curu, Preto, Sesto, Mu, Doido e Gordo) e espremeu a barriga do infeliz até conseguir 1,5ml de esperma. Era o Sesto, que gemeu durante o processo mas colaborou como um bom menino. "Êta, Sesto, tá pensando que a vida é só comer ração e dormir?" Era o Barba, que trabalha lá no ranário, alimentando e limpando os bichos. Depois foi a vez dos outros, um por um, colaborarem com a sua parte para o nosso belo quadro social (Raul vive!).

Quando tínhamos 20 ml de bom esperma, foi a vez das moças. Lila foi a primeira, e não quis saber de conversa: recusou-se a colaborar. Thai também estava indisposta, mas a Minga nos forneceu 10g de ovos pretinhos, que foram imediatamente fertilizados por 0,5ml do esperma dos rapazes, que tinha sido todo misturado. A Minga, depois de alguns minutos, estava pronta pra outra e mandou ver mais 10g. Enquanto isso a Lila e a Thai só olhavam o que acontecia, impassíveis, como costumam ser as rãs. Nisso eu fui comprar umas skóis, que nós estávamos com sede. Enquanto eu fui lá, a Lila forneceu 30g ( ! ) de belíssimos ovos e, quando eu cheguei, eles estavam sendo fertilizados. O Giláo pediu que eu segurasse um saco plástico enquanto ele derramava a água com ovos, esperma, albumina e outras químicas invisíveis. Depois foi encher o restante do saco com oxigênio puro e amarrar a boca.

O Sesto estava exausto, então os outros rapazes passaram a fornecer esperma enquanto a Thai foi espremida até expelir seus ovos. Ela olhou pra mim como quem diz "eu não queria que fosse na sua frente, mas não consegui evitar, desculpe...". Eu a desculpei. O Barba foi buscar outra skol.

Agora era a vez do Gordo fornecer o esperma. Mal o Birico o pegou e já começou a esguichar o líquido, nem precisou espremer (acho que era medo, o Birico é forte...), quase nem deu tempo de pipetar. Mas o campeão foi o Preto. Encheu quatro pipetas (de 2ml cada) e ainda olhava com cara de 'quero mais'. Acho que ele estava flertando com a Lila, mas ela não ligou. Ela estava com dor de cabeça, eu acho. O Giláo gritou: "Teeth, segura o saco!" Alguns ovos caíram pra fora e eu tive que catar, mas no final deu tudo certo. Agora temos mais de 500 girinos, nadando felizes dentro de duas caixas d'água. Semana que vem tem mais. Meninos, aguardem!

sexta-feira, 10 de março de 2006

Impressões

"Os dente, farta dois na frente
Mas fico contente se ela ri pra mim "
Ari Toledo (Linda, meu bem)

Que não existem duas bocas iguais no mundo qualquer estudante de odontologia do primeiro ano sabe. A grande novidade agora é a possibilidade de se utilizarem essas características únicas dos dentes de cada vivente (ou até mesmo morto) para identificá-lo. Seriam usadas impressões dentais ao invés de digitais:

Em vez da impressão digital, a impressão “dental”. Pesquisadores da Faculdade de Odontologia da Unicamp descobriram que cada dente possui marcas que são como uma assinatura. Ou seja, a exemplo da íris e das digitais, que são únicas para cada ser humano, o esmalte dos dentes também pode servir para identificar pessoas.

No caso de um criminoso deixar uma marca de mordida no local do crime vai ser fácil indentificar, porém há uma saída: os bandidos podem, como forma de evitar a identificação, 'arrancar' os dentes naturais e mandar fazer dentaduras específicas para cada crime. Por exemplo, para os políticos, dentaduras com caninos bem longos, como de vampiros. Vai combinar bem.

quarta-feira, 8 de março de 2006

Sotaques

"Na beira da lagoa foram ensaiar, para começar, o tico-tico no fubá
A voz do pato era mesmo um desacato"
João Gilberto (O pato)

Já que me acham ranzinza mesmo, eu vou reclamar mais: ontem ouvi um músico, desses de bar, cantando a música "Cuitelinho". Essa música, pouca gente sabe, é originária do folclore do Pantanal de Mato Grosso do Sul. Da região sul do pantanal - e pra quem não sabe também, o pantanal fica muito mais em Mato Grosso do Sul (3/4) do que no Mato Grosso. Pois cuitelinho, para os pantaneiros da região do Nabileque e da Nhecolândia, é o nome pelo qual é conhecido o beija-flor. O detalhe é que essa região fica na fronteira do Paraguai, onde o sotaque é muito particular, principalmente a pronúncia das vogais fechadas, fazendo com que a palavra soe "cuitêlinho" (claro, é uma palavra paroxítona, eu coloquei o acento só para indicar a pronúncia do ê, fechado).

Só que, um belo dia, um certo Paulo Vanzolini, aquele mesmo, autor de Ronda (de noite, eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar...) achou a música bonita e saiu por aí cantando. Xavantinho e Pena Branca gravaram. Milton Nascimento gravou. Em ambas as gravações, no crédito da música, aparece: "Recolhida por Paulo Vanzolini". Peraí: recolhida de onde, cara pálida?

Mas o pior não é isso: o pior é que tanto Xavantinho e Pena Branca como Milton Nascimento imprimiram um sotaque do norte de Minas, fazendo o 'cuitêlinho' virar 'cuitélinho'. Como a música ficou relativamente famosa nessas vozes, até o povo daqui de Mato Grosso do Sul agora canta assim, 'cuitélinho'.

Então, só pra confirmar as raízes da canção, vou colocar aqui a letra, coisa que não costumo fazer.

Cuitelinho
Folclore do Pantanal de Mato Grosso do Sul

Cheguei na beira do porto, onde as ondas se espaia
As garça dá meia vorta e senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia

Quado eu vim de minha terra, despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso, dei em terras paraguaia*
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia

A tua saudade corta feito aço de navaia
O coração fica afrito, bate uma a outra faia
E os óio se enche d'água
Que até a vista se atrapaia

* Sobre esse verso existem duas curiosidades: a primeira é que, há 28 anos atrás, o estado de Mato Grosso foi dividido e, dessa divisão, criou-se o estado de Mato Grosso do Sul. Até hoje tem gente que não sabe que são dois estados e confunde tudo. A segunda é que Xavantinho e Pena Branca não gostavam de cantar a letra, que diz 'dei em terras...', eles achavam isso feio. Eles eram machos pacas!

segunda-feira, 6 de março de 2006

O ranzinza

"Acordar sempre com o mesmo sermão,
Aturar o mau humor do teu cão: ninguém merece"
Zeca Pagodinho (Ninguém merece)

Às vezes eu recebo um e-mail reclamando que eu não gosto da odontologia, que eu sou muito crítico, perguntando o porque de toda essa negatividade. Hoje chegou um, pena que o autor não se identificou:

Anonymous sayd:
Dr Teeth, vejo que tem boa formacao por que tamanha infelicidade, a odontologia esta bem ruim assim ?? Qual e a sua especialidade ?

Então eu vou responder aqui: não é que eu não goste de odontologia, nem que a profissão seja ruim ou esteja tãããããão detonada. É que eu me revolto com algumas coisas que acontecem e escolhi este blog para reclamar. Eu sou ortodontista e professor, já tive minha participação em entidades de classe e colaborei com uma série de eventos que eu acredito que foram importantes para melhorar as condições em que os cirurgiões dentistas trabalham. Mas eu fico louco quando vejo gente que estudou muito pouco ganhando muito dinheiro à custa de propaganda.

Todo mundo deve ter direito ao seu lugar ao sol. As pessoas estudam, investem em suas carreiras, sofrem, se dedicam, tudo isso por dois motivos bem simples: primeiro porque se você vai ser um cirurgião dentista, seja um dos bons. Proporcione ao seu cliente um tratamento de qualidade, no mínimo da melhor qualidade que você é capaz de proporcionar. Isso quer dizer que você não deve se meter a fazer o que não sabe. Se você não estudou implantologia, não se meta a fazer implante só porque viu uma palestra no congresso e achou fácil. Ou porque isso dá mais dinheiro do que fazer tratamento de canal. Faça o que você sabe fazer direito, estude e seja um bom profissional.

O segundo motivo porque um profissional estuda e se dedica é que isso deveria trazer uma compensação financeira a ele. Ora, um bom profissional, que estuda, se atualiza, sabe o que está fazendo e proporciona um tratamento de boa qualidade ao cliente deveria ser bem pago por isso, não é? Só que não é bem isso o que acontece. Aquele que 'perde' seu tempo estudando acaba ganhando menos do que o que aproveita o tempo fazendo marketing. Então nós temos o paradoxo do dentista que não estudou, não se dedicou, não se atualizou, mas tem um marketing de primeira, ganhando clientes daquele que ficou ralando na escola.

Então, não é que eu seja negativo ou infeliz. Eu adoro a minha profissão, me realizo muito com ela e consigo, a duras penas, sustentar a minha família. É que este blog é pra reclamar mesmo, pra meter a boca, xingar, difamar e incitar a revolta. Quem sabe assim eu faço como o passarinho que jogava uma gota de água sobre o incêndio da floresta: faço o que posso, faço a minha parte. Falo muito sobre isso com os meus alunos, também, mas eles são obrigados a me ouvir, porque eu sou o professor. Aqui, lê quem quer. Quem sabe mais pessoas lêem as minhas malcriações e se sintam na pele dos que querem um mundo melhor.

sexta-feira, 3 de março de 2006

Sinal fechado

"Pra semana, o sinal
Eu procuro a você, vai abrir, vai abrir"
Paulinho da Viola (Sinal Fechado)


Quinta-feira, 01:30 da madrugada, Mr. Teeth voltando pra casa de carro. Chego a uma esquina e vejo um carro, sozinho no meio da rua, parado. Acho estranho, àquela hora, alguém parado no meio da rua, mas entendi: o infeliz estava parado em um sinal fechado! Pois vejam como são as convenções, em plena madrugada, o cara pára para uma luz vermelha, fica olhando para ela, hipnotizado, até que ela se apague e a verde acenda. É capaz de passar a noite ali, se o sinal for comandado por um computador com windows travado: "Este programa executou uma operação ilegal e será fechado - aperte qualquer tecla", e o operador que deveria apertar a tecla está dormindo e babando em cima do teclado.

Em tempos de CPI's e mensalões, é uma pouca vergonha a gente ficar obedecendo a essas convenções anacrônicas, com medo de aparecer um guarda - e, acreditem, é capaz de aparecer um, de moto, a essa hora pra multar o pobre-coitado - e ter que, além de pagar multa, levar 1500 pontos na carteira, ser chicoteado em praça pública e castrado. Hoje tem que ter lei para que os meritíssimos juízes não contratem seus queridos parentes para os cargos que deveriam ter concurso, e nós continuamos parando no sinal vermelho de madrugada.

O pior de tudo é que além do risco de levar uma multa, corremos também o risco de um assalto (bem menos provável a essas horas, que os assaltantes já foram dormir), mas bem mais violento, porque os assaltantes de sinal usam revólveres. Os assaltantes de Brasília usam canetas. E não dormem cedo.