Normas

Da Paraíba para o mundo, com amor:

Todo o material publicado nesta página representa o ponto de vista parcial e preconceituoso de um indivíduo do século passado. Se você achar aqui afirmativas que lhe pareçam sexistas, xenófobas, racistas ou, de qualquer outra maneira, ofensivas a seus pontos de vista, pare de ler imediatamente. Ou prossiga, a seu próprio risco. Ou não.

Use antes de agitar: leia as normas do blog e lembre-se: comentários são moderados. Anônimos não serão publicados.

E aproveite que eu sou professor: se você achar que eu posso ajudar, mande um e-mail para mrteeth@ghersel.com.br

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Bactéria x bactéria

E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar
Raul Seixas (O dia em que a terra parou)

Notícia quentinha: pesquisadores alemães inventarm um chiclete que combate as cáries. Legal, a iguaria contém bactérias que combatem o grande causador da cárie, um certo Streptococcus mutans, velho conhecido da comunidade odontológica e mestre em frustrar tentativas de acabar com ele. Já tentaram vacina, bochecho com mil e uma substâncias, feitiçaria, benzedura, reza brava e nada. O bicho continua lá, se é que se pode chamar bactéria de bicho. Tá, eu sei que não é, mas o som da frase ficou legal, então eu vou deixar assim.

O problema é que existe, sim, um jeito de evitar cáries. Uma associação simples de flúor e bons hábitos de higiene. Raios, escovar os dentes é hábito de higiene básica, eu já escrevi sobre isso quando falei de manias e do número de vezes que se deve escovar. Mas ficam inventando um jeito de evitar a necessidade de escovação. Será que ninguém pensa em arrumar um jeito de não precisar mais tomar banho todo dia? Seria legal, você toma um comprimido e pode ficar um mês sem tomar banho que não vai ter doença alguma. Se você ficar fedido como um porco, não tem problema, porque doença você não vai pegar. É um paralelo razoável: você masca um chiclete e não precisa escovar os dentes. Os outros que aguentem o bafão.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Aniversário

Eu nasci há dez mil anos atrás
E não tem nada neste mundo que eu não saiba demais
Raul Seixas (Eu nasci há dez mil anos atrás)

Aniversário passa e autor nem tchuns...

Pois é, o Al-Dente fez um aninho no dia 01/06 e eu nem percebi... agora já foi, nem dá mais pra comemorar, vai ter que ficar para o próximo. Eu vou mesmo meio desligado, não consido guardar os nomes das pessoas nem as datas dos aniversários, deve ser algo genético, sei lá.

Mas eu prometo que vou tentar me lembrar do aniversário de dois anos e fazer um post caprichadíssimo, editado no word, revisado, com figura e tudo. Abraços a todos e muito obrigado aos que me lêem com frequência - sei que são poucos, mas selecionadíssimos!

sábado, 26 de agosto de 2006

Esses santos homens e suas imaculadas biografias II

Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
Chico Buarque (O meu guri)


Quebra-Quebra no Escritório do Deputado JOÃO GRANDÃO (MS)

O Deputado João Grandão, também conhecido como João “Sirene”(?), ao chegar no seu escritório, olhou para o monitor de seu computador e, num acesso de raiva, pegou uma cadeira, começou a quebrá-lo e a gritar:

- Não admito! Não admito! No meu próprio escritório!

E continuou a quebrar o seu computador. O seu assessor, muito assustado, lhe perguntou o que estava acontecendo.

-Olhe ali, no computador! Não admito! Sanguessuga!!!! No meu computador!!! Não admito!!!! - respondeu gritando o Deputado. O assessor olhou para o monitor todo quebrado e respondeu:

- Não, Deputado, é SAMSUNG. O monitor é da marca SAMSUNG, não é sanguessuga.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O que o cliente quer ouvir

Me diz que eu sou seu tipo
Repete, amor, que eu acredito
Eduardo Dusek (Seu tipo)

É difícil para o cliente ouvir do profissional que sua expectativa de tratamento está errada. Normalmente a pessoa chega à clínica com uma idéia relativamente concreta do que a espera: "vou a um ortodontista, devo usar aparelho nos dentes por um ano e tanto, vai doer e tals". Quando ouve o que não queria, não gosta, claro. Se o ortodontista diz que o caso é cirúrgico, ou que precisa de um tratamento periodontal antes e isso não fazia parte dos planos, é quase certa a decepção.

Durante muito tempo eu me recusei a fazer tratamentos ortodônticos de casos que exigiam cirurgia se o cliente não quisesse operar. Perdi todos. Muitos dos clientes até não se recusariam a operar, mas queriam ter uma opção. Hoje, mais experiente, eu dou opção a eles - um tratamento que vai 'quebrar um galho', apenas maquiando o problema, sem corrigi-lo realmente. Faço isso roendo o céu da boca, eu sei que não está certo, mas eu preciso dar uma opção ao meu cliente, ou ele vai acabar encontrando um que diga o que ele quer e, com certeza, vai se dar mal. Isso aconteceu com a moça da cirurgia e com muitos outros que eu vi por aí.

Acontece muito em casos de extração. O cliente já chega dizendo que não quer extrair dentes, se eu fincar o pé e dizer que sem extração eu não trato, ele vai achar outro que trate. Então eu preciso dizer: "Vamos começar assim, se depois do alinhamento dos dentes você estiver feliz com o resultado, terminamos. Se não, estudamos as possibilidades". Entre essas possibilidades estão as extrações e, até lá, ele pode estar convencido de que esse é o melhor caminho.

Mas o principal nisso tudo é nunca mentir para o cliente. Deixar muito claro que o tratamento alternativo é sempre muito inferior em resultados ao inicialmente proposto. Que o 'quebra galho' não vai resolver o problema, vai apenas varrer a sujeira pra baixo do tapete. Nunca dar a impressão que vai ficar bom, porque não vai. Não existem milagres, infelizmente.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Esses santos homens e suas imaculadas biografias

Vai cair, a máscara azul
Vai cair, o nível mental
Raul Seixas (Dentadura postiça)

Estou impressionadíssimo com a falta de nomes de políticos do MS nas listas de mensaleiros, saguessugas e da bandidalha em geral sendo pilhada pela imprensa. Não pensem que é porque por aqui o nível de corrupção seja menor do que em outras plagras.

Podemos nos orgulhar de possuir um dos mais representativos espécimes do coronelismo fisiológico da política brasileira, um certo Pedrossian, que foi (sempre ao lado do governo) UDN, Arena, PDS e, com essa história eminentemente de direita reacionária, acabou no PTB (?) do Brizolla, ícone da esquerda burra e golpista. Daí já dá pra ter uma idéia do nível do fisiologismo das duas figuras. Pedrossian, o flagelo armênio do Pantanal, conseguiu ser governador do antigo estado do MT (antes da divisão) e duas vezes do MS depois desse criado. Indicado, a golpe de pena, e depois eleito. Enriqueceu como o diabo, tornou-se, de engenheiro de ferrovia, em um dos maiores latifundiários e criadores de nelore do mundo. Quebrou espetacularmente, vítima do vício pouco recomendável de apostar a própria moradia em carteados - e perder.

Pois agora, aposentada tal eminência, temos um vácuo na bandidagem pantaneira, só conseguimos emplacar um mísero deputado federal. Vladimir Moka, que ainda nem foi citado na CPI, já se diz inocente e é candidatíssimo à reeleição. Reelege-se sempre. O outro nome citado, João Grandão (homem pequeno, note-se), é estadual e está enrolado até a raiz dos fartos cabelos. Não deve ser difícil para ele, entretanto, se safar. A tradição Sul-Matogrossense de relevar os pequenos deslizes de seus representantes não há de deixar esse filho da terra desamparado. Deve ser reeleito também, para gozar da merecida imunidade que o 'parlamento' lhe dá.

Ah, esses nobres homens e suas impolutas biografias...

terça-feira, 15 de agosto de 2006

O professor processado

Tudo em volta está deserto tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco
Caetano (Como dois e dois)

Pois a moça fez quase tudo como deve ser feito. Procurou um professor da Universidade Federal, supostamente um profissional de primeira linha, para realizar a cirurgia. Ela tinha um bom trauma pela forma da arcada superior projetada, já tinha procurado tratamento ortodôntico, mas o ortodontista disse que ela precisava de 18 meses de tratamento, uma cirurgia e mais 6 meses de aparelho.

Era demais para ela, aparelho ortodôntico por dois anos, com uma cirurgia relativamente grande no meio, anestesia geral e 3 dias de internação... Não, tinha que ser uma coisa ou outra. Procurou o primeiro cirurgião, que deu o mesmo diagnóstico. Finalmente ela encontrou um que aceitou operá-la sem o preparo ortodôntico. Infelizmente, para cirurgião e paciente, as coisas não deram certo, leia a matéria completa, vale a pena.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Entidades de classe (Updated)

Tem gente que passa a vida inteira
Travando a inútil luta com os galhos
Sem saber que é lá no tronco
Que está o coringa do baralho
Raul Seixas (As aventuras de Raul...)

Outro dia alguém me perguntou, via comentário, se eu acho importante participar de entidades de classe, ABO, sindicato e afins. Eu acho que sim, mas escolher bem a entidade para se associar é de vital importância. É necessário, antes, ver direitinho qual é o propósito da entidade, para depois investir seu rico dinheirinho nela.

Eu sou sócio da ABO desde a minha formatura. Na verdade, desde que eu era acadêmico. Considero a ABO uma entidade séria, comprometida com os interesses da classe. Se não fosse assim, eu não seria sócio. Como não sou sócio do sindicato. Também não pago o sindicato, nem mesmo a tal 'contribuição sindical', que eles nos roubam todo ano. Parei, quero ver o que os caras vão fazer comigo. Parei porque eu vejo que o sindicato, pelo menos aqui no MS, não funciona como deveria, e eu já me dou o direito de só pagar pelos serviços que eu efetivamente recebo. Quem se insurgiu contra o ato médico, por exemplo, foi a ABO. Cadê o sindicato, nessa hora? Estava ocupado, ministrando cursos para ganhar dinheiro.

É a velha história do dinheiro à frente das pessoas. Eu sempre digo aos meus alunos: "Nunca coloque o dinheiro à frente do seu paciente. Você pode ganhar muito agora, mas um dia a coisa pega, o jacaré te abraça e a casa cai". Já cansei de ver acontecer. E o sindicato caminha a passos largos nessa direção. Quem quer um sindicato atuante, que realmente defenda a classe, não paga esse sindicato que nós temos hoje.

Outras entidades, como a ABCD, por exemplo, só existem para dar cursos mesmo. Aí, entrar numa dessas, é fria total.

UPDATE

Mas foi só eu falar sobre o sindicato e me cai nas mãos o jornal "Odonto em ação". Vou reproduzir aqui os títulos das matérias do jornal, veja só:

- Inscrições abertas para o segundo curso prático para confecção de aparelhos ortodônticos e ortopédicos
- Conheça as regras dos cursos de pós-graduação
- Alunos do curso de periodontia do Sindicato de Cuiabá atendem a população
- Primeiro curso de periodontia no SIOMS representa mais um avanço da classe
- Inscrições abertas para o curso de especialização em prótese dentária do SIOMS
- Curso de iniciação em ortodontia e ortopedia facial
- Curso de especialização em ortodontia se destaca pela equipe de docentes
- Professor Marcelo Fabian esclarece a importância da especialização na vida profissional
- Curso de especialização em ortodontia supera as espectativas
- Caso clínico - enxerto de tecido conjuntivo subepitelial (tinha que ter um caso clínico, se não não era um jornal "científico")
- Curso de especialização em implantodontia tem presente na equipe de docentes o professor Alberto Consolaro
- Mais uma turma em implantodontia finaliza a especialização com êxito e as inscrições estão abertas para o próximo curso
- Turma do curso de atualização em implantodontia finaliza com sucesso
- Inscrições abertas para o curso de especialização em implantodontia na Base Aérea de Campo Grande.

Tem mais, mas eu cansei de digitar. Todos esses cursos são oferecidos ou no Sindicato dos Odontologistas (sic) de Mato Grosso do Sul, ou na Base Aérea de Campo Grande, ou no Sindicato do estado de Mato Grosso. E eu me pergunto: prá que é que serve o sindicato?!? Eu lá sei o que é odontologista? Prá que serve a Base Aérea?????? Eu tenho certeza absoluta que essas entidades não deveriam estar promovendo cursos de odontologia.
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segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Ugh!

Para levar num hospital de aleijado
Eu vou com muito cuidado
Moreira da Silva (Bilhete premiado)

O pior fim-de-semana da minha vida

Sexta, saindo de uma gripe (coisa que eu não tinha há anos), dei um mau-jeito nas costas. Distensão muscular, o resto da sexta, o sábado e o domingo de molho, quase sem poder levantar. Segunda levantei pra ir pra facu. Ainda dói, mas eu funciono, só me faltou um feriado pra descansar.

Não esperem que eu escreva coisas engraçadinhas tão cedo.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Dentista não mata

O humano é o engano do humano
E é o mano que engana o outro mano
Arnaldo Antunes (O engano do humano)

Uma moça morre nos EUA, vítima de um "médico" que a mutilou em uma suposta cirurgia de lipoaspiração. O "médico" atuava sem licensa, processado no Brasil, sem condições de higiene e biossegurança em um porão. Outra moça já tivera problemas com o esquema.

Eu fico me perguntando como é que as pessoas se submetem a esse tipo de coisa. Será possível que estão cegos? Não conseguem enxergar um palmo à frente do nariz, não vêem que a situação é de extremo risco, não pesam os custos da empreitada? Será que só vêem dinheiro em sua frente? Veja que quando eu falo de pesar custos, não estou falando de dinheiro, estou falando de custo biológico, de infecção, dor, mutilação, morte! A moça procura um criminoso, não checa suas referências, não visita a 'clínica' antes da cirurgia, não pesquisa a história, não se importa com nada a não ser em fazer uma cirurgia que, a princípio, lhe dará um corpo melhor a um precinho camarada. O problema é que, como eu não me canso de dizer, o barato sai caro. Sempre.

Na odontologia não é diferente. A grande diferença é que o cliente do dentista raramente morre. As mutilações são frequentes mas, como ficam dentro da boca, ninguém percebe. Não são tanto mutilações estéticas, são funcionais, o que é muito pior, mas tem muito menos visibilidade. Não há uma cultura de se reclamar de serviço mal feito por dentista. Há muito, muito corporativismo, o que é plenamente compreensível, mas torna a profissão menos confiável. Todo mundo reclama se a TV que acabou de comprar pifar, mas se o dente quebra e o dentista não quer consertar, deixa pra lá.

Então continua a cultura de procurar um serviço baratinho, a despeito da qualidade. Quase ninguém pensa que não existe milagre, que um profissional que estudou e sabe bem o que está fazendo, custa caro. Custa porque investiu na profissão. Fez curso de biossegurança, ao invés de marketing.

Em tempo: dentista quase nunca mata.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

A última dos convênios

Se agora prá fazer sucesso
Pra vender disco de protesto
Todo mundo tem que reclamar
Raul Seixas (Eu também vou reclamar)

Um leitor (o Demitri) pergunta se eu sei se é possível protestar um convênio. Eu sei, eu tenho absoluta certeza que sim, só duvido um pouco que a justiça seja feita, como sempre, aqui no nosso brasilzão. Mas que é possível, isso é, porque todos os convênios são regidos pela ANS.

Então, o conselho do titio Dentes é que, você querendo protestar o convênio, em primeiro lugar dê uma estudada na legislação, disponível lá no site da ANS. Constitua um advogado e vá atrás dos seus direitos. Guarde TODA a documentação pertinente ao caso, organize-se ao máximo, junte toda a sua paciência, sua fé nas instituições, nos seres superiores do universo ou no que mais você acredite e boa sorte.

Eu espero, sinceramente, que o Demitri consiga receber seu dinheiro (tenho a impressão que ele levou um cano...), o que seria uma vitória e tanto. Estou torcendo.

Pronto, prometo que não reclamo mais dos convênios.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Nova turma

A fé tá viva e sã, a fé também tá pra morrer
Triste na solidão
Gilberto Gil (Andar com fé)

Comecei ontem com a nova turma de alunos. Crianças, praticamente, estão no meio do primeiro ano da faculdade, não conhecem os termos da odontologia nem sabem direito onde se meteram. Cabe a mim mostrar-lhes o início da coisa, proporcionar o primeiro contato com profissão. É sob meus cuidados que eles vão, pela primeira vez, vestir branco e enfiar os dedos na boca de outra pessoa. Profissionalmente, eu digo.

Espero e acredito que teremos um relacionamento extremamente proveitoso, pois devo colocar em prática antigos sonhos de professor, compartilhar o plano de ensino, a avaliação e a busca do conhecimento. Estou motivado e animado. Vamos ver se o resultado compensa.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Desespero

E talvez, desesperado com tanta devastação
Pegou a primeira estrada sem rumo, sem direção
Geraldo Azevedo (Saga da amazônia)

Deve estar duro mesmo, ganhar dinheiro honestamente com Odontologia: só hoje recebi propaganda de duas instituições do Paraná oferecendo cursos e mais cursos de especialização, a preços absurdos.

A impressão que dá é que ninguém mais consegue sobreviver de consultório, todo mundo resolveu virar professor, instituições aparecem como moscas rondando carniça, faculdades das quais nunca se ouviu falar, professores completamente desconhecidos, com currículos altamente duvidosos. Hoje recebi folhetos (bonitos, por sinal) da Uningá e da Cesumar, ambas do Paraná, no desespero de arrumar alunos para seus cursos.

Como se Mato Grosso do Sul fosse terra de ninguém. Como se aqui não houvesse universidade, conselho, abo. Como se aqui não houvesse mestres e doutores. Meio de mato, fim de mundo. Mas os dentistas broncos daqui devem ter um dinheirinho pra gastar, então vamos ciscar nesse terreno, quem sabe sai alguma minhoca.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Sobre quem paga e quem recebe

Enquanto as piranhas comem, temos que passar ligeiro
Toque logo esse boi velho que vale pouco dinheiro.
Almir Sater (Travessia do Araguaia)

Eu sei que é um direito de qualquer criatura que esteja desembolsando uma certa quantidade em dinheiro pechinchar. Eu sei que, nestes tempos bicudos, de pouco tutu na mão da gente e muito nas mãos dos que não merecem, a gente tem que pagar sempre o mínimo possível por um produto ou serviço, mas isso tem que ter um limite.

É que eu sempre me sinto muito mal quando um cliente acha que eu estou cobrando caro pelo tratamento. Eu me sinto desprestigiado, como se ele estivesse me dizendo: "Doutor, seu trabalho não vale isso tudo". Ou seja, eu estudei a vida toda para fazer um trabalho ao qual me dedico de corpo e alma, capricho extremado, atendo meu cliente pessoalmente todas as vezes, uso material de primeiríssima qualidade, tenho consultório bonitinho e confortável, música, ar-condicionado, local de fácil acesso, estacionamento, secretária educada, atendo na hora marcada, etc, etc, etc... e o cliente vem me dizer que meu trabalho não vale o que eu cobro.

Tá, você pode argumentar que não é nada disso, que o cliente só está pechinchando e que isso é um direito dele, mas eu não posso evitar de me sentir assim. Às vezes o cliente me pede um desconto, diz que a vida tá difícil, que ele quer muito fazer o tratamento comigo, então eu arrumo um jeito de dar um desconto bem camarada pra ele: eu não dou o recibo, você não declara aos ladrões de Brasília que me pagou e eu dou um descontão, bem maior do que o que eu pagaria de imposto. Eu já argumentei que sonegar o IR é legítima defesa quando escrevi sobre o Kapaz, os malvados, o "Brasil Sorridente", o Duda Mendonça e a foto da Veja, então não vamos entrar nessa discussão novamente. O problema é quando o cliente acha que esse desconto ainda não está bom. Ontem aconteceu. Eu não arredei o pé, mantive meus preços e o cliente disse que ia fazer o tratamento. Não sei se vai mesmo, mas eu, no fim, me senti melhor.

Me senti como se tivesse conseguido convencer o cliente de que eu valho o que cobro.

quarta-feira, 19 de julho de 2006

10 mitos da Ortodontia 9

Convênios

No início, dá a impressão de que nós vamos ganhar dinheiro com os convênios, mas isso passa logo. O grande problema é que o convênio só é bom para a empresa que o administra. O cliente paga até mais do que pagaria por um tratamento particular, só que paga bem lentamente e quase não percebe. O profissional recebe muito menos do que receberia por um tratamento particular. Com quem fica a parte boa? Claro, com a administradora.

Aí é que entra a Uniodonto. Eu não sou cooperado, já fui e não sou mais, mas acredito que é o único convênio que não nos rouba, porque é uma cooperativa de Cirurgiões-Dentistas. Se a Uniodonto roubar seus cooperados, estará tirando dinheiro de um bolso para colocar em outro, ou seja, não vale a pena. O contrário também é verdadeiro, se você fraudar a cooperativa, estará fraudando seu próprio patrimônio. Então, se todos tiverem consciência de que esse caminho é válido, estamos conversados. O grande problema da cooperativa – e o grande motivo da minha briga com ela – é que não há restrição de especialidade. Eu, como ortodontista, tinha como concorrentes TODOS os outros cooperados, ou seja, qualquer CD pode fazer tratamento ortodôntico. Numa cooperativa de CD´s isso é uma pena, porque desestimula o estudo e a especialização do profissional: porque eu vou gastar tempo e dinheiro em uma especialização, se eu posso fazer o tratamento e receber tanto quanto um especialista?

Convênios particulares são os piores. Empresas como Pax, Associl e outras, acabam ganhando muito dinheiro com o nosso trabalho. Elas simplesmente fazem a ligação entre o cliente (que paga todo mês) e o profissional, que recebe pouco por seu trabalho. Ficam com a melhor parte, ou seja, a maior parte do dinheiro. Não é vantagem para o cliente ou para o profissional, esse tipo de convênio, inclusive porque os tratamentos mais caros e especializados, como próteses, implantes e tratamentos ortodônticos, normalmente não são cobertos. O cliente tem que pagar por fora, total ou parcialmente.

E tem o último tipo, que agora está virando moda: a administradora faz um contrato com uma associação ou sindicato qualquer, cadastra uma série de profissionais e oferece: o funcionário paga o profissional com um vale, o profissional no final do mês apresenta os vales e recebe à vista. Os valores são descontados em folha do funcionário. Para o profissional é ótimo, porque ele nunca vai ficar sem receber. Por outro lado, o cliente ganha um desconto, que ele negocia com o profissional diretamente. Ótimo, não é? Só que, para ser cadastrado, o profissional é obrigado a comprar um espaço no catálogo do convênio, que pode chegar a $1.200,00. Isso mesmo, mil e duzentos reais!

Ou seja: se você for fazer um convênio, pense muito bem e faça as contas direitinho.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Mudando os rumos da humanidade

Dançarei pelado na cratera da lua
Mesmo sem saber onde termina
A minha e onde começa a sua
Cazuza (Balada de um vagabundo)

E não é que a raça humana continua produzindo inutilidades e gastando energia em idiotices? Pois veja só, pelados e pelantes brigando por um pedaço de areia, como se neste país faltasse areia na beira do mar. Só podia ser coisa de carioca mesmo, ao invés de comprar uma briga que valha a pena, que realmente melhore a vida das pessoas, ficam discutindo se o cara tem ou não o direito de passar a mão na mulher (que, pelo jeito, está gostando) em público.

Enquanto isso, nos gabinetes de Brasília correm soltos deputados, senadores e outros ladrões engravatados, tramando formas de usurpar nosso suado dinheirinho. Será que esses cariocas não poderiam ir se pelar e se apalpar lá no congresso, como forma de protesto? Já que eles gostam tanto de tirar a roupa e brigar, poderiam usar essa prerrogativa para protestar, deixando os bandidos eleitos encabulados.

UAU, que bela idéia!!! Um protesto de pelados! Vou mandar emelho pre eles!

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Convênios

Hoje o tempo está mais firme, abre mais meu apetite
Cura e seca meu bronquite algumas folhas de hortelã
Luiz Melodia (Estácio, eu e você)

Eu acredito que o futuro da Odontologia será a socialização, um processo que está em franco desenvolvimento com a medicina, podendo-se chegar ao ponto em que as necessidades odontológicas da população serão bancadas pelo estado, com os clientes atendidos em clínicas públicas ou particulares sem pagar diretamente pelo tratamento ao profissional. Isso é especialmente importante para que a população de baixa renda tenha acesso a tratamentos de qualidade, principalmente na área de prevenção. O cenário ideal teria três situações hipotéticas:

1. O cliente não tem como pagar pelo tratamento, dirige-se a uma clínica pública (posto de saúde) e é atendido, sem grandes demoras, por uma equipe bem treinada e bem remunerada e um profissional com boa formação na área específica. Nada lhe é perguntado, se ele pode pagar ou não, se tem seguro-saúde, convênio, nada. Ele também não paga pela consulta nem pelo tratamento, que são integralmente cobertos pelo estado. As desvantagens são o atendimento ambulatorial (clínica pública), sem hora marcada e sem continuidade no tratamento, ou seja, para cada atendimento o cliente precisa passar por todo o processo de identificação e fila de espera.

2. O cliente pode pagar por um tratamento um pouco mais diferenciado, dirige-se a uma clínica particular (consultório) e lá apresenta seus documentos que comprovam que ele é segurado por um plano de saúde que cobrirá parte dos custos de seu tratamento. Ele teria sua consulta agendada para um período que o profissional separou para atender pacientes de convênios e faria seu tratamento nessa clínica particular, com hora marcada. A grande vantagem é que o cliente recebe um atendimento personalizado, com hora marcada e continuidade no tratamento, porém este será feito exclusivamente nos horários determinados pelo profissional. Esse cliente paga por um plano de saúde, que se encarregará de repassar ao profissional os valores determinados em contrato.

3. O cliente tem condições de pagar por um tratamento particular, não depende de planos nem convênios e acerta os pagamentos diretamente com o profissional, recebendo em troca o tratamento com todas as mordomias a que tem direito.

Desnecessário dizer que na primeira hipótese o profissional é empregado do estado, concursado, especialista e recebe um salário compatível com sua função e com o número de horas trabalhadas, podendo também receber adicional por produtividade. É obrigado a se atualizar constantemente (ou recebe incentivo para isso) e tem boas condições de trabalho. Para o segundo cenário, os planos de saúde devem ser administrados por cooperativas dos próprios profissionais, pois planos privados normalmente exploram o cliente e o profissional, além de não oferecerem tratamento razoável.

Teoricamente nós temos isso acontecendo agora mesmo. Hoje, no Brasil, existem excelentes postos de saúde com atendimento 24 horas, bons profissionais que são muito bem remunerados e dos quais é exigido um desempenho mínimo, equipes bem treinadas e material de boa qualidade, sem custo para o paciente, que pode ser atendido via SUS e não precisa provar nada. Também temos as cooperativas de saúde, UNIMED e UNIODONTO que, embora não trabalhem juntas como deveriam, são administradas pelos profissionais e oferecem planos de saúde muito bons.

Não é assim?

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Linda

Cabelo Loiro vai la em casa passear, vai, vai
Cabelo loiro vai cabar de me matar
Almir Sater (Cabelo Loiro)


Alguém pode me explicar porque a Linda Cardellini alisou o cabelo?!?

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Mais professor ainda

E a novidade que seria um sonho,
O milagre risonho da sereia
Gilberto Gil (A novidade)

No próximo semestre eu começo uma nova disciplina: Introdução à Odontologia. É uma disciplina do primeiro ano, os alunos são calouros, vindos diretamente do cursinho e da casa do papai, a maioria deles sempre teve tudo na vida (faculdade particular, $$$).

Vai ser extremamente desafiador, pois até agora eu só trabalhei com alunos "domados", ou seja, a Ortodontia, no quarto ano - quando eles já entenderam que serão profissionais e devem ter uma postura de acordo - ou na pós-graduação, quando eles já se formaram. Estou muito excitado com a perspectiva dessa nova experiência, espero me sair bem, afinal de contas é o primeiro contato da moçada com a Odontologia. Eu devo convencê-los de que essa é uma profissão digna e respeitável, que lhes trará realização pessoal e lhes permitirá sustentar suas famílias sem descambar para a bandidagem.

Tarefa árdua, mas eu vou encarar.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Cursos e mais cursos

Eu admiro o que não presta, eu escravizo quem eu gosto
Eu não entendo, eu trago o lixo para dentro
Marisa Monte (Tudo pela metade)

A Odontologia está em uma situação que beira o ridículo: profissionais mal-preparados mentindo para os clientes que cobram pouco, os clientes acreditando e os poucos dentistas que estudaram bastante se agarrando pelas paredes para conseguir pagar as contas. Nesse universo, ministrar cursos é uma beleza de acréscimo na renda, chegando a ser a principal atividade para alguns. É porque um diplominha a mais na parede pode ser uma bela jogada de marketing, então, quanto mais inútil o curso, melhor, porque não é preciso muito esforço para conseguir o tal diploma.

Talvez por isso a ABO esteja promovendo um "Curso de Odontologia Médica", assim, todo com letras maiúsculas, nome pomposo, tudo! Leia a matéria e, se você entender do que eles vão falar e qual a utilidade prática desse curso, por favor, me explique. Será que se eu estudar o vetor de força que atua sobre um bracket colado abaixo do ponto de resistência da raiz do pré molar, em caso de 4 extrações, eu vou aprender mais?

Acho que eu vou lançar um curso sobre "Limitações do marketing na Odontologia", para ensinar aos pobres colegas sobre as armadilhas que os marketeiros usam para nos tirar dinheiro. Será que eu fico rico assim?

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Finou-se

O risultado dessa travissia foi um sucesso triste, Virge-Ave-Maria
O risultado da bramura foi qui o ri levô os vaquêro, o dono, os burro e os boi, ai sôdade...
Elomar (Chula no terreiro)

Bom, então as duas velhas conhecidas do futebol brasileiro deram as caras: empáfia e soberba. Na verdade nossa seleção não jogou o suficiente nem pra chegar onde chegou, contou com a inferioridade técnica dos outros times. Se pega uma Argentina, leva de 4, no mínimo.

Não falo mais de seleção nem de copa, pelo menos não neste ano, prometo.

Toca o barco!