Normas

Da Paraíba para o mundo, com amor:

Todo o material publicado nesta página representa o ponto de vista parcial e preconceituoso de um indivíduo do século passado. Se você achar aqui afirmativas que lhe pareçam sexistas, xenófobas, racistas ou, de qualquer outra maneira, ofensivas a seus pontos de vista, pare de ler imediatamente. Ou prossiga, a seu próprio risco. Ou não.

Use antes de agitar: leia as normas do blog e lembre-se: comentários são moderados. Anônimos não serão publicados.

E aproveite que eu sou professor: se você achar que eu posso ajudar, mande um e-mail para mrteeth@ghersel.com.br

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Feliz 2007

Enquanto este velho trem atravessa o pantanal
Só meu coração esta batendo desigual
Ele agora sabe que o medo viaja também
Sobre todos os trilhos da terra
Paulo Simões e Geraldo Roca (Trem do Pantanal)

Este ano me deu vontade de fazer, como no ano passado, um balanço do que eu fiz de positivo, alguns planos para o próximo ano e um belo post de Ano Novo. Mas aí deu preguiça, eu fui tomar uma cerveja e a vontade passou, ainda bem!

Então eu só vou desejar tudo de bom para os meus amigos em 2007, e que possamos nos ver, nos abraçar, brigar e beber juntos mais vezes do que em 2006.

Então, um super Ano Novo pra todos vocês!

Em tempo: a música de abertura, na verdade, se chama 'Sobre todos os trilhos da terra', mas até mesmo o Paulinho, autor da letra, chama de trem do pantanal, como todo mundo conhece, então, quem sou eu pra discutir com ele?

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Extração causa convulsão?

Desculpe o auê,
Eu não queria magoar você
Rita Lee (Desculpe o auê)

A notícia informa que uma menina de três anos teve convulsões e entrou em coma, com risco de morte, após a extração de um dente. Infelizmente qualquer profissional de saúde que administre medicamentos a pacientes está sujeito a um episódio desses. Quando acontece com uma criança, é uma tragédia de proporções extremas. Tentamos, da melhor forma possível, amenizar o sofrimento dos nossos clientes, principalmente quando são crianças, nos dói muito saber que uma delas chorou durante toda a noite com dor.

O problema é que, muitas vezes, os pais deixam para levar o filho ao dentista quando passou trabalho durante a noite, com o guri chorando de dor de dente. Já é uma fase em que raramente o dente pode ser salvo. Não me cabe aqui julgar pais ou a profissional que atendeu a menina, apenas lementar. Por ter chegado a esse ponto. Pelo azar de ter acontecido. Por ter acontecido com uma criança. Eu trabalho com crianças todos os dias, trato seus dentes, sei como é.

Será que foi imprudência da profissional, que usou um anestésico suspenso pela ANVISA? Será que ela não sabia da suspensão? Ou usou o anestésico que estava à mão? Ou não foi por isso o problema?

Só o que eu posso fazer é torcer para que a menina se recupere sem sequelas. E aconselhar aos pais que façam tratamento preventivo em seus bebês, não esperem a cárie, levem o pimpolho ao dentista mesmo antes de nascer o primeiro dente, assim evitam noites mal-dormidas e outros enormes dissabores.

Update

A menina morreu. Nem preciso dizer o quanto eu sinto. A proibição da venda do anestésico era devida a uma imprecisão nas informações do rótulo, ou seja, nada que levasse a um acidente desse tipo. A profissional jura que não administrou mais do que um tubete (1,5 ml, dose normal) e a mãe diz que foram quatro! Se foram mesmo quatro, provavelmente a menina sofreu intoxicação aguda, mas eu não tenho informações suficientes para fazer qualquer afirmação. Reafirmo que tudo o que eu posso fazer é lamentar. Quisera poder fazer mais.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Clientes crentes

Ou, o que três copos de chopp podem fazer pela lucidez de uma mulher

Não entendi o enredo desse samba, amor
Já desfilei na passarela do teu coração
Jorge Aragão (Enredo do meu samba)

Aconteceu ontem: depois de um dia inteirão ralando no consultório, eu e a Respectiva resolvemos considerar mais o clima de fim-de-ano do que o fato de ser terça-feira e fomos tomar um chopp gelado. Escolhemos um pseudo-restaurante que serve comida árabe disfarçadinha (na verdade o forte deles é o delivery, mas também servem - mal - mesinhas na calçada) e demos fim em vários copos, sendo que a Respectiva, que não costuma beber, deletou três.

Como nós reclamamos que um dos choppes não estava muito gelado, no final, a garçonete veio se desculpar. A pobrezinha falava uma imitação do português que nos deixou meio atônitos. Ela tentava explicar que alguns "criente" não entendem que a máquina de gelar nem sempre está bem regulada. Deu-se o diálogo:

Garçonete: - Desculpe o chopp, é que a máquina está meio desregulada...
Respectiva: - Tudo bem, foi só um meio morno, os outros estavam bons.
G: - Tem uns "criente" que sempre vêm aqui que não quer nem saber, dão o maior bafão!
R: - Ué, mas crente bebe chopp?
G: - Ô, é um atrás do outro, e se não tá gelado, é o maior bafão!
R: - Esses crentes devem ser dissidentes, porque, pelo que eu sei, crente não bebe.
G: - Eles bebem sim, e muuuito!

E eu fiquei pensando o que a moça entendeu por 'dissidente'...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Imagens de pensamento

Que nem cometa em noite estrelada
Meu pensamento vai comendo estrada
Almir Sater (Galopada)

Pra vocês não dizerem que estou mentindo:


Perceberam o detalhe? O 'search engine' utilizado pelos dois visitantes deste blog foi o Google Images, que é específico para busca de imagens, né? E porque é que um carioca e um português foram procurar imagens de pensamentos?!?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

As armas de cada um

E o cachorro, o que é que tem?
- Os dentes
Chico Buarque (Todos juntos)


Foto: gentileza da leitora Adriana, tnx.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Exercícios gengivais

Nadando contra a corrente
Só pra exercitar
Todo o músculo que sente
Cazuza (Pro dia nascer feliz)

Notícia quente: a ANVISA acabou de descobrir que o uso de anabolizantes aumenta as gengivas! Ora, veja... depois de todos os 'bens' e 'males' que os esteróides anabolizantes causam no corpo humano, descobre-se que causam hiperplasia gengival, a exemplo dos anti-convulsivantes mais usados.

Resultado de uma pesquisa turca, a descoberta é um alerta aos Cirurgiões Dentistas (e no site do JB online, fonte da notícia, está escrito certinho!) para que fiquem atentos a aumentos gengivais durante tratamentos odontológicos.

Na verdade, as gengivas são o destino certo de diversas afecções bucais e mostram sinais claros de várias doenças, mesmo antes de elas mostrarem outros sintomas. Alguns dependentes químicos esfregam a droga na mucosa, causando hiperplasia e hiperemia, o que também pode ser detectado pelo CD.

Enfim, as gengivas não têm músculos mas também podem crescer com o uso de anabolizantes.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

O homem, o porco, a lenda

Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
Depois de pular igual a macaco
João Bosco (Tiro de misericórdia)

MORRE PORCO DE ESTIMAÇÃO DO ATOR GEORGE CLOONEY

Pois vejam só, o homem tinha um porco como animal de estimação... é realmente um espanto, a mania que os americanos têm de possuir bichos exóticos. Por aqui, teria virado feijoada há muito tempo. Lá, morreu de velho.

Talvez meu próximo animal de estimação seja um boi. Em caso de necessidade, vira churrasco.

- Traz o carvão, Tadeu!

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Reminiscências...

"Eu vou mostrar pra vocês, como se dança o baião
E quem quiser aprender é favor prestar atenção"
Luiz Gonzaga (Baião)

E, por falar em especialização, andei relendo meus escritos antigos e resolvi re-recomendar a meus fiéis leitores a visita a três posts que fiz sobre cursos de especialização, que tinham por título "onde fazer especialização:
  1. O coordenador
  2. A instituição
  3. A equipe

Isso é uma pequena contribuição do tio Teeth à formação dos coleguinhas. Eu não pretendo, com isso, definir normas, mas se eu fosse recomendar um curso ao meu irmão, eu me guiaria por essas normas, é assim que eu penso. Eu não trabalho em pós-graduação se não for desse jeito, então eu não só prego como cumpro essas instruções. Quem quiser aproveitar, sinta-se à vontade, só em saber que eu ajudei em alguma coisa já me deixa feliz.

domingo, 26 de novembro de 2006

Sobre o café e o refinamento

"Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café"
Chico Buarque (Cotidiano)

Eu sou mesmo um bronco. Eu adoro café, mas tem que ser forte, quente, pouquíssimo ou nenhum açúcar e em xícara grande. Coisa de gente do interior. Outro dia, andando pelo supermercado, achei um pacote de um café especial, de terras altas, 100% arábica, grãos selecionados e preço compatível, ou seja, três vezes o custo do pacote que eu costumo comprar.

Como eu gosto de novidade e já me acho meio troglodita, levei o danado pra casa e experimentei.

Achei uma porcaria. Aguado, fraco, com uma cor marrom-claro indefinida, cheiro e gosto de café barato. Está guardado, esperando eu ter coragem de jogar fora uma coisa que custou tão caro. Continuo tomando meu velho café comum, do qual eu gosto muito. Na verdade eu não tenho refinamento de paladar suficiente para apreciar essas coisas, sou capaz de gostar mais de vinho Almadém de 10 reais do que de um Romanee Conti de 3.000 dólares. Então eu continuo tomando o Almadém (ou a minha preferida, a cerveja) e deixo os refinados gastar dinheiro com as coisas finas. Eu, que sou bronco, fico com o 'comunzão', que eu gosto e pago preço justo.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Especialização em Ortodontia

Mas por favor, não me condene por isso não
É tudo tão comercial
Rita Lee (Status)

Eu não queria, mas vou ter que fazer uma propaganda descarada aqui: A moçada lá da UNIDERP, a facu que eu trabalho, está lançando cursos de pós-graduação em diversas áreas da Odontologia. Uma delas é orto, a minha especialidade. Então eu vou colocar aqui o link para maiores informações:

Então a propaganda está feita. Se você pretende cursar especialização, principalmente em orto, dá uma olhada lá.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Fominha

Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Chico (Hino de Duran)

Bandido em greve de fome... parece que o 'Marcola' resolveu facilitar para nós: parou de comer, exigindo alguma coisa que ele não tem direito. Por mim, tudo bem. Economizamos na comida, economizamos o dinheiro que seria gasto pra manter o vagabundo na cadeia. Se ele morrer, não se perde grande coisa, pelo contrário, a seleção natural se encarrega de eliminar da natureza os genes que não prestam.

Deixem o moço em paz, deixa ele morrer de fome, que fica mais barato!

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Lisarb

Fiquei na porta estacionando os carros
Não me elegeram chefe de nada
Cazuza (Brasil)

Pra quem não entendeu, Lisarb é o nome do país ao contrário. De que país? Do país de vocês, caras-pálidas, que moram aí no Brasil, que nem sabem o que acontece no Lisarb. Veja só: Brasil azul, Lisarb verde:


Ah, você acha que conhece o Lisarb? Não mente que é feio! Responda rápido: qual é a capital de Rondônia? E Roraima? Campo Grande fica em que estado mesmo???

Pois então, o Lisarb é um ilustre desconhecido, ignorado, deixadelado. Não aparece nas pesquisas, não é consultado, não é lembrado, não tem mar, não tem importância. Produz boi, algodão, soja, mas isso é comida. Não produz presidente - a bem da verdade, Jânio Quadros nasceu aqui perto... mau exemplo.

Acho que eu exagerei no tamanho do Brasil. Goiás e Tocantins às vezes mudam de lado.

sábado, 28 de outubro de 2006

Dia do Dentista

Dia de exaltação
dia de orgia
Luiz Tatit (Nosso dia D)

Dia 25/10, quarta-feira, foi o Dia do Cirurgião-Dentista. Aos leitores e amigos que se lembraram e mandaram emelho, meu muito obrigado.

De propósito, eu não escrevi nada. Ia ser covardia, ia parecer que eu estava mandigando uma congratulação desmerecida, mas alguns me mandaram uma mensagenzinha dizendo 'parabéns', e eu ganhei o dia.

Na quinta fui a Sampa. Fazia quase um ano que eu não ia lá, desde a minha defesa de tese de doutorado, que foi em novembro de 2005. Putz, a cidade está mais bonita, mais louca, mais complicada, mais gostosa. Eu adoro Sampa. Será que isso é sintoma de alguma desordem comportamental?

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Dentista do faraó

Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Raul Seixas (Ouro de tolo)

Notícia fresca: foram descobertas tumbas de dentistas no Egito. Dentistas do faraó. Pelo jeito, era gente importante, porque as tumbas eram ricamente adornadas e com locais para oferendas.

Se hoje tem dentista por aí cercando cliente em festa e colocando outdoor com propaganda, antigamente, pelo menos no Egito, eles eram importantes. A Odontologia sofre com seu passado europeu, tendo sido exercida pelos barbeiros e por todo tipo de picareta, até chegar a se tornar ciência. Nesse ponto o velho continente colaborou com o atraso, pois os árabes já dominavem técnicas cirúrgicas e conheciam medicamentos eficazes, mas eram desprezados por puro preconceito.

Agora prova-se que no Egito, cuja civilização antiga até hoje impressiona por seus feitos, a Odontologia era exercida por pessoas de grande prestígio social, ao ponto de merecerem tumbas elaboradas e próximas à do próprio rei. Leia o artigo inteiro, vale a pena.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Sobre rosas, formigas, tamanduás...

Sobre rosas, formigas, tamanduás...

Rubem Alves

O seu nome era Brasilino Jardim. Brasilino Jardim tinha jardim no nome e jardim no coração. Ele amava todas as coisas vivas, de plantas a urubus. A vida, para ele, era sagrada.

Brasilino Jardim não ia à igreja. As pessoas religiosas temiam por sua alma e se perguntavam: "Ele não sabe que é preciso ir à igreja para estar bem com Deus? Quem não está bem com Deus corre perigo! Deus castiga!"

Brasilino sorria um sorriso manso e perguntava: "Onde está dito, nas Sagradas Escrituras, que Deus fez uma igreja? Todo Poderoso, se quisesse igrejas teria feito igrejas. Todo Poderoso, ele fez o que queria. E o que é que ele fez? Plantou um jardim. E está dito que ele 'andava pelo jardim ao vento fresco da tarde!' Quando estou no jardim sei que estou andando no lugar que Deus ama. Deus ama a vida, o vento, o sol, a terra, a água — coisas que estão no jardim. Mas as igrejas são lugares fechados, abafados. Bichos e plantas não se sentem felizes lá dentro..."

Não freqüentava igrejas mas amava um santo: São Francisco. Porque São Francisco foi o homem que via Deus nas coisas da natureza. São Francisco amava tudo o que vivia e, segundo a lenda, as coisas que viviam o entendiam, tanto que ele pregava sermões aos peixes e aos pássaros. Freqüentemente os animais ouvem melhor que os seres humanos...

Foi então que o Brasilino Jardim resolveu plantar um jardim em homenagem a São Francisco. Teria de ser um lindo jardim, com um canteiro de rosas no meio. E assim foi. Vendo as folhas viçosas das roseiras, a primeira rosa que se abrira e os botões que se abririam no dia seguinte, Brasilino foi dormir contente.

Ao acordar pensou logo no jardim. Queria ver se os botões já estavam abertos. Mas, decepção! O que ele encontrou foi devastação. Durante a noite as formigas saúvas haviam cortado todas as folhas e todas as flores das roseiras. Brasilino ficou muito triste. Resolveu aconselhar-se com um vizinho que tinha um lindo canteiro de rosas floridas.

"O jeito é matar as formigas", disse o vizinho. "Formigas e jardins não combinam. Para as formigas jardins são hortas, coisas para serem comidas."

"Matar as formigas? De jeito nenhum. São criaturas de Deus, como todos nós. Se foi Deus quem as fez, elas têm o direito de viver. Formigas têm direitos..." E com essas palavras deixou o vizinho falando sozinho. "Onde já se viu matar as formigas? São criaturas de Deus. Tem de haver outro jeito..."Pensou: "Se as formigas comeram as roseiras, comeram porque estavam com fome. Não foi por maldade. Se eu der comida às formigas elas deixarão de ter fome e não comerão as rosas".

Dito isso plantou, à volta do jardim de rosas, um anel de cenouras tenras e doces que seriam o deleite alimentar das formigas. Mas as formigas ignoraram as cenouras. Continuaram a comer as roseiras.

"Talvez elas não tenham entendido", ele pensou. "Não perceberam nem que as cenouras são deliciosas e nem que são para elas. Ainda não foram educadas. Se forem educadas para gostos mais refinados não comerão as rosas. Serei um educador de formigas."

E como sabia que a noite é o tempo preferido pelas formigas para cortar roseiras, Brasilino passou a dar aulas às formigas durante a noite, peripatéticamente, no seu jardim. Queria que as formigas aprendessem a gostar gastronomicamente de cenouras e plasticamente de rosas.

O vizinho ficou incomodado com aquele falatório noturno. Foi ver do que se tratava. E se espantou. "Brasilino, você endoidou? Pregando às formigas?" Brasilino respondeu: "São Francisco pregou aos pássaros e aos peixes. E eles entenderam. Pois eu vou pregar às formigas e elas haverão de entender." Mas as formigas não ligavam para a aula do Brasilino. Não aprenderam a lição nova. Formiga continua a ser formiga. Continuaram a cortar as roseiras.

Diante do fracasso da pedagogia, Brasilino se lembrou de um recurso inventado pelos humanos chamado "condomínio". O que é um condomínio? São casas cercadas de muros de todos os lados, com o objetivo de impedir a entrada dos criminosos, que ficam do lado de fora. "Farei o mesmo com as minhas roseiras", ele disse triunfante. Ato contínuo tomou garrafas de coca litro, cortou bicos e fundos, fez um corte vertical ao lado e usou esses cilindros ocos como cintas protetoras para os caules das roseiras. "Agora minhas roseiras estão protegidas! As formigas não entrarão!" Pobre Brasilino! Ele não conhecia a esperteza das formigas. Elas sabem fazer túneis, escalar muralhas, passar por frestas, fazer pontes. E quando ele foi ao jardim, pela manhã, viu que as formigas haviam devorado de novo suas roseiras.

Lembrou-se então Brasilino de uma velha estória que relata o feito de um flautista que livrou uma cidade de uma praga de ratos que a infestava. O que foi que o flautista fez? Simplesmente tocou sua flauta! "Ah! A música tem poderes mágicos! Claro, as formigas não entendem a linguagem pedagógica dos argumentos. Haverão de ser sensíveis à magia da música." Comprou uma flauta e pôs-se a tocar o Bolero de Ravel. As formigas reagiram imediatamente. Sentiram o poder da música. Até os bichos têm música na alma. Começaram a mastigar folhas e rosas ao ritmo da música encantadora.

Com o fracasso da música, veio-lhe, então, uma nova idéia: "Se as formigas não podem ser nem conscientizadas pela palavra e nem sensibilizadas pela música, as rosas podem ser. Assim, vou despertar nas minhas rosas o sentimento da não-violência, da beleza da paz. O pensamento tem poder. Se todas as rosas fizerem juntas uma corrente de pensamentos de paz a energia positiva no ar será tão forte que as formigas se converterão..."

Espalhou, pelo jardim, imagens coloridas de paz. Flores sorridentes. Pôs CDs com música sobre rosas, Strauss, Vandré e Caymmi. Tudo, no espaço do jardim, sugeria paz e não violência. Quem visitasse o seu jardim sentia a energia positiva no ar. Mas parece que as formigas não eram sensíveis à energia positiva de paz. Continuaram a cortar as rosas.

Aí ele começou a ter raiva das rosas. "Não compreendo a passividade das rosas! Elas não se defendem! Tinham de se defender! Pois Deus não dotou as criaturas com o direito de defender a sua vida?"Cobriu então os galhos das roseiras com espinhos pontudos e afiados, facas e espadas que as rosas deveriam usar para se defender das formigas. Mas as rosas não sabiam se defender. Não sabiam usar armas. Eram mansas e desajeitadas por natureza. As formigas continuaram a subir pelos seus galhos sem ligar para os espinhos.

No desespero, Brasilino resolveu tomar uma atitude mais radical, que mesmo contrariava seu sentimento de reverência pela vida: foi para o jardim munido de um martelo e pôs-se a martelar as formigas que se aproximavam das suas roseiras. Mas o número das formigas era imenso. Não paravam de chegar. Matou muitas formigas a marteladas, o que não as perturbou. E havia também o fato de que Brasilino não podia ficar martelando formigas o tempo todo. Precisava dormir. Dormindo, o martelo descansava. E as formigas trabalhavam.

"Já sei!", ele disse. "Apelarei para o Papa. O Papa tem reza forte. Pedirei que ele ore para que as formigas parem de comer minhas rosas" . Escreveu então uma carta para o Papa, expondo o seu sofrimento, e pedindo que ele intercedesse junto aos santos, junto à virgem, junto a Deus... Afinal de contas, as hostes celestiais deviam ter um interesse especial na preservação do jardim, aperitivo do Paraíso.

As autoridades eclesiásticas, de posse da carta de Brasilino, deram a ela a maior consideração, e a colocaram na lista da orações pela paz que o Papa rezava diariamente: paz entre judeus e palestinos, paz entre russos e chechênios, paz entre protestantes e católicos, paz na Espanha, paz na Colômbia, paz no Peru, paz na África... Era uma lista enorme. O Papa orou mas nada mudou. Os homens continuaram a se matar e as formigas continuaram a cortar suas roseiras.

De repente ele ouviu uma voz que o chamava. Era a voz do seu vizinho, que contemplava tudo em silêncio. "Eu tenho uma solução para o seu problema com as formigas, sem que você tenha de matar as formigas."Brasilino se espantou: "Como?"O vizinho explicou: "Você acha que as formigas são criaturas de Deus. Sendo criaturas de Deus têm direito a viver. Você está em boa companhia espiritual. Homens como São Francisco, Gandhi e Schweitzer também sentiam reverência pela vida." Brasilino ficou feliz ao se ver colocado ao lado desses santos.Seu vizinho continuou: "Mas isso que você diz para as formigas deve valer para todas as criaturas. Certo?" "Certo", concordou Brasilino."Então, por que você não traz um tamanduá para morar no seu jardim? Tamanduás também são criaturas de Deus. E adoram comer formigas! Para isso têm uma língua fina e comprida, que entra até o fundo dos formigueiros! Para o tamanduá, comer formiga não é pecado; é virtude!"

E foi assim que o Brasilino, sem desrespeitar suas convicções espirituais, trouxe um tamanduá para viver no seu jardim.

E o tamanduá engordou, as formigas sumiram, o jardim floresceu e o Brasilino sorriu...

Moral da estória: Quem quiser se livrar das formigas e manter uma consciência tranqüila, que compre um tamanduá...

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Sobre a informática e as frieiras

Agora ele procura um outro meio
Agora em vez de lindo ele acha feio
Agora ele já está de saco cheio
Luiz Tatit (O menino)

Eu sou Cirurgião Dentista, mestre em Ortodontia e Doutor em Materiais Dentários. Eu consigo falar uma tarde inteira sobre biomecânica, sem chatear (muito) a audiência. Minha tese de doutorado foi sobre propriedades dos fios ortodônticos. Eu consigo falar um dia inteiro sobre as propriedades dos fios (chateando bastante a audiência, que esse tema é muito teórico), estrutura molecular cristalina, transformações alotrópicas, trabalho mecânico a frio, encruamento, tipos de ligas, materiais alternativos. Eu estudei essas coisas feito louco para fazer a minha tese.

Ontem veio um coordenador de um curso de pós-graduação em ortodontia me pedir aula de informática. Pô, eu não trabalho com informática! Pra mim, informática é hobbie. Eu monto meus próprios computadores, montei minha rede, configurei tudo, me viro direitinho com os programas que eu preciso usar no meu dia-a-dia, mas não sou técnico em informática. Eu sou ortodontista, com mestrado e doutorado. Se o cara precisasse de alguém pra falar de frieira na unha do pé, ele não iria convidar um doutor em oncologia. Ele ia convidar um podólogo.

Pois eu estou de saco cheio de me convidarem pra dar aula de informática. O dinheiro é até bom, mas eu acho isso um desaforo!

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Leishmaniose

Não há vacina, nem vitamina
Pega só de olhar
Rita Lee (A gripe do amor)

Mato Grosso do Sul é área endêmica para a Leishmaniose visceral, doença grave transmitida por uma porcaria de um mosquito e que infecta, também, os cães. O detalhe é que um cão infectado não tem cura, tem que ser sacrificado, tadinho. Como eu tenho uma renca de cachorrada aqui em casa, resolvi vacinar as três, pois não quero arriscar. Nada seria pior para mim do que ter que sacrificar uma das cadelinhas.

A vacina, dizem, é eficaz, mas o bicho sofre um bocado. O local da aplicação fica extremamente dolorido, dá febre, uma judiação. Pois as reações foram bem diferentes:
  • Fly, a pinscher marrom, é a menor das três. E também a mais agressiva, já mordeu muita gente. Um bicho que quase nada consegue derrubar, resistente, atlética (consegue pular umas três vezes a própria altura). Pois foi a que mais sentiu, ficou de cama, sem andar, sem comer, com febre alta... demos dipirona pra ela, e foi o que a fez melhorar.
  • Sissy, a pinscher preta, sentiu um pouco menos. Ela já é uma senhora, com seus 6 anos de idade, está bem gordinha, não pula mais e é muito paciente, inclusive na hora de comer (ela já sabe, por experiência - coisas da idade - que não vai faltar). Também teve dificudade de andar, tomou dipirona e melhorou.
  • Pinky é o bebê da casa. Poodle branca que, não raro, dorme na cama com a gente. Um bicho frágil e delicado. Pois essa nem sentiu nada, eu até liguei na clínica para confirmar que ela tinha sido mesmo vacinada. Continuou com sua vidinha inútil, como se nada tivesse acontecido.

Mas mesmo com o transitório desconforto delas, vou aplicar as outras duas doses da vacina, pois a alternativa é bem pior. Mas, da próxima vez, vou dar dipirona antes de sair de casa. Analgesia preventiva!

sábado, 14 de outubro de 2006

O culpado é o mordomo

E podem mesmo falar mal
Ficar de mal que não faz mal
Carlos Lyra/Vinícius (Você e eu)

Um dos blogs que eu gosto de ler é o "Fogo nas entranhas", e está devidamente listado aí à direita, para quem quiser visitar. Gosto do jeito da moça escrever, inteligente, informal, bom português. Passei uns dias sem ler e, hoje, vi um post dela que me chamou tanto a atenção que resolvi, sem permissão, reproduzir parcialmente. Quem quiser ler tudo, o título é "O dicionário maldito". Abaixo, uma breve explicação e o trecho que eu achei interessante:

"Ambrose Gwinett Bierce ou só Ambrose Bierce (1842-1914), para os íntimos, foi um homem notável: Jornalista, escritor (principalmente de contos de terror) crítico, dramaturgo, poeta e veterano condecorado da Guerra Civil Americana (o que, a meu ver, não o torna notável de modo algum, enfim) era, o que chamamos, alguém “da pá virada” (velha essa, hein?) Uma mistura de Poe, Samuel Johnson, Swift e Wilde americano. ...

... Isso aí em cima foi só uma introdução para dizer que, entre as obras que o tornaram famoso, Bierce foi o criador do Dicionário do Diabo (caraca, eu tô falando demais do capiroto ultimamente, vai dizer? Ui! Vade Retro!) - um apanhado de citações cáusticas e mordazes, algumas simples, mas por isso, perfeitas. Outras são sem graça e outras bem interessantes. Pra você, que como eu, adora um bom sarcasmo e grandes citações. Voilá."


E lá, entre as 'citações cáusticas' do rapaz, não podia faltar uma sobre o monstro, o torturador implacável, o mau-caráter de plantão:

"Dentista - Um mágico que coloca metal em
sua boca e extrai moedas de seu bolso"


Lendo nas entrelinhas: o responsável por você estar mais pobre é ele. Mas, peraí: quando você entrou no consultório, estava amarrado, sendo arrastado contra a sua vontade? Você foi obrigado a ir até lá? Arrancaram seu dinheiro, descontaram direto do seu salário? Ameaçaram de precesso judicial, prisão, tortura e execração pública? Não?!?

Ora, então não reclame e vá curtir sua dor de dente em casa. Não me encha o saco!

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Pior que dentista

Era uma vez na amazônia, a mais bonita floresta
Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
Geraldo Azevedo (Saga da Amazônia)

Eu fiquei sinceramene chocado com o acidente do avião da Gol no Mato Grosso. Tantas vidas perdidas de forma tão besta... mas também porque eu sei o quanto é seguro voar em um desses aviões, porque eu adoro voar, porque eu morro de medo de viajar de carro. Não que eu não goste: eu até que dirijo bem na estrada, já rodei alguns milhares que quilômetros pelas rodovias do país, mas eu sei que é muito, mas muito perigoso mesmo. Caminhoneiros bêbados, motoristas inexperientes, imprudentes, estradas ruins, enfim, tudo conspira contra a nossa vida em uma estrada. No céu não: é raríssimo uma morte em avião grande. No entanto...

O pior não é nem isso: enquanto os americanos tratam de colocar a culpa (que é, claramente, deles) em algum pobre brasileiro - seja ele controlador de vôo, empregado da Embraer ou algum morto no acidente, como piloto, co-piloto, comissário, aeromoça, qualquer um - advogados canalhas assediam as famílias dos mortos de forma acintosa, desrespeitosa, bandida mesmo!

Pelo menos um consolo eu tenho: parece que o exercício da advocacia por aqui está pior do que a odontologia. Os advogados estão mais desesperados do que os dentistas, hehehehe. Parece até piada: quem é o profissional que estuda anos e anos para depois se prestar ao papelão de sair feito louco atrás de clientes, apelando para os mais baixos expedientes a fim de roubar um cliente de um colega? Responda rápido! Até porque, se não for bem rápido, é capaz de aparecer um advogado querendo ajudar!

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Direito de votar?!?

Cuidado com polícia! Cuidado com ladrão!
Não seja condenado a votar em canastrão! Obrigado não!
Rita Lee (Obrigado não!)

Eu sei, eu sei, todos os meus 2,5 leitores já estão enjoados de ler minhas broncas contra o sistema eleitoral brasileiro, em especial contra o voto obrigatório. Mas uma das coisas que eu posso fazer contra o que eu não concordo é esbravejar e escrever na internet, porque o que a gente escreve aqui fica disponível para o mundo todo. Eu não quero perder essa chance. Se eu jogo uma gota de água sobre a floresta em chamas, estou fazendo o que é possível para mim, já que eu não posso quebrar a cara do infeliz que inventou essa coisa indigna que é voto obrigatório.

E a grobo ainda tem a cara-de-pau de dizer que é "direito" de cidadão. Direito é poder escolher. Direito é poder dizer "dane-se!". Direito é poder se omitir, eu tenho o direito de ser alienado, burro, escroto, o que eu quiser, desde que não atrapalhe os outros, ou até atrapalhando.

Eu quero ter o direito de dormir o dia inteiro no domingo, sem ser obrigado a sair para votar em um bando de bandidos que vão me extorquir durante 4 anos, vão rir da minha cara de otário e bancar os importantes. Eu quero ter o direito de me sentar em um bar e tomar minha cerveja no domingo. Eu quero ter o direito de mandar todos os políticos para o inferno. Ou não.